Os patrões, os trabalhadores e os “patos”.

Cesar Mangolin

É, sem dúvida, grave a situação do país por ocasião dos efeitos da greve dos caminhoneiros. Em um corpo que padece de males diversos qualquer constipação tende a ser a beira do abismo.

Longe de mim querer comparar a nossa formação social a um corpo e suas funções. Apenas utilizo a analogia ou a metáfora para colocar em evidência três elementos que me parecem explicar o alcance da crise para, depois, de maneira rápida, criticar determinadas “visões” da crise que beiram a histeria.

Primeiro, vivemos num país com um governo ilegítimo, fraco, impopular, produto de um golpe que buscou resolver pela força o que as forças atreladas aos interesses da alta finança e do capital estrangeiro (tendo como testa de ferro o PSDB) não conseguiram resolver eleitoralmente.

Segundo, esse governo não é continuidade de qualquer maneira do governo de Dilma, eleito pelo voto popular em 2014, ainda que o golpista de plantão fosse o vice daquele governo. Caso as “agendas” ou os programas de governo batessem, das duas uma: não seria necessário o golpe ou não seria Temer quem ocuparia a presidência. Decorre do primeiro ponto este segundo: a assim chamada agenda neoliberal foi assumida e aplicada por este governo, com pretensões de repassá-la (não sem resistências) adiante para aliados mais fiéis (o Geraldinho Picolé de Chuchu e o PSDB, as marionetes de confiança do grande capital).

Terceiro, a interação desses dois conjuntos pode explicar sinteticamente a crise: um governo impopular e ilegítimo, com alta rejeição nacional, que procura aplicar a toque de caixa medidas que revertam a política dos governos anteriores que buscavam conciliar crescimento econômico com desenvolvimento social. As consequências sociais são imensas e sentidas desde já: efeitos da reforma trabalhista, da ausência de investimentos em políticas públicas, eliminação ou drástica redução de programas sociais, aumento do desemprego, dos preços para o consumidor final, da entrega das riquezas e da soberania nacionais etc.. Ora, não deveria espantar ninguém que os efeitos de tais políticas antipopulares seriam sentidas desde já. Caso fosse para continuar como estava (e não era um paraíso!) não haveria razão para o golpe.

A Petrobras entrou no butim dos vencedores do golpe: embora o povão tenha sido convencido pela grande imprensa de que a Petrobras estava falida e muito (tonto) desinformado continue a dizer que a solução é privatizá-la de uma vez, o fato mesmo é que a empresa persistiu como uma das maiores do mundo e é alvo de interesses poderosíssimos. Aos poucos, ela vai sendo entregue às grandes corporações do petróleo. Os royalties do pré-sal não serão mais aplicados integralmente à saúde e educação (medida aprovada no governo Dilma e eliminada como uma das primeiras medidas do governo golpista). A entrega da Petrobras e a nova política de preços dos combustíveis (implementada por Pedro Parente, um quadro do tucanato) passa a ter como prioridade os interesses dos acionistas, a relação com as “concessionárias” e as grandes corporações. O preço dos combustíveis passa a depender do preço internacional do barril do petróleo e da taxa de câmbio. A desvalorização do real em relação ao dólar também faz com que os preços subam constantemente.

Esses aumentos sucessivos vão pesar no bolso de todos os trabalhadores brasileiros, mas prejudicam aqueles que vivem dos transportes por causa da soma das condições. AQUI ENTRAM OS CAMINHONEIROS. Além do aumento do preço do diesel, houve aumento dos pedágios, dos pneus, das autopeças, dos alimentos e, ao mesmo tempo, uma pressão constante sobre o valor dos fretes. Chamo de caminhoneiros três grupos: primeiro, o daqueles sujeitos que possuem um caminhão e ficam na condição do que costumam chamar de “agregados” de empresas. Eles são, no geral, dependentes diretamente de uma ou no máximo duas empresas, têm destinos e agendas definidos pelas empresas, tempo de viagem determinado pelas empresas. Em tudo, portanto, figuram na prática como empregados dessas empresas, menos num detalhe: o instrumento fundamental de trabalho é de sua propriedade, portanto, os custos da viagem e da manutenção saem do valor recebido pelo frete. O segundo grupo, mais precarizado, é o de motoristas que trabalham com caminhão alheio e continuam a receber pelo valor do frete, com os descontos dos custos da viagem (combustível, alimentação, pedágios) e mais o desconto do percentual pago ao dono do caminhão (seja uma empresa ou uma pessoa física). Por fim, há motoristas de caminhão contratados, cada vez mais raros, que recebem salários.

Vejam: é para esses dois primeiros grupos que o preço do combustível, dos pedágios e demais necessidades fala alto. Num dado ponto de esgarçamento das suas condições, encontram na paralisação das atividades um argumento poderoso. Para os motoristas de caminhão contratados, assim como para motoristas de ônibus, o preço do diesel, dos pedágios, das passagens interessa muito pouco. Mas é claro que parar de trabalhar pode gerar uma melhora nas condições dos dois primeiros grupos no curto prazo, mas também prejudica imediatamente, visto que ganham por fazerem muitas, cada mais rápidas e arriscadas viagens cortando o país.

Aqui entra o segundo grupo interessado no processo: o dos empresários das transportadoras, que procura na situação de crise arrancar vantagens de um governo moribundo, ilegítimo e irresponsável (porque deixou a “corda” esticar para além do possível), como a redução de impostos que afetam seus lucros mais diretamente e em nada tem relação necessariamente com a melhora do valor dos fretes (que tende a ser arrochado), assim como a redução dos impostos de qualquer produto apenas pode fazer aumentar a lucratividade de um dado setor e não a redução dos preços para o consumidor.

A atual greve dos caminhoneiros tem, sem dúvida, grupos e interesses difusos que se beneficiam mutuamente. A participação dos empresários, de um lado, favorece ou facilita a adesão dos caminhoneiros. De outro lado, a luta dos caminhoneiros (legítima e compreensível) dá base social e política para os empresários. Talvez um e outro não fariam sozinhos o que acabaram fazendo juntos. Não é, portanto, nem apenas um locaute, mas a combinação do locaute com uma paralisação de fato dos trabalhadores que percebem seus interesses envolvidos ali. A contradição fundamental entre patrões e empregados não aparece nesse processo. Aqui há uma contradição principal comum que reúne pelo menos temporariamente os dois grupos: é a que envolve empresários e caminhoneiros e a política do governo golpista. Isso pode ser temporário porque não há de tardar que caminhoneiros coloquem em questão o nível de exploração e riscos aos quais estão submetidos pelas transportadoras.

Mas, por fim, resta falar de outro grupo, que tem mesmo entre os caminhoneiros forte expressão: aqueles dessa nova, obtusa e de toda equivocada “direita” brasileira, que tem preenchido as ruas, o mundo virtual e as fossas sépticas pelo Brasil afora desde 2013. Há, sem dúvida, uma porção de tresloucados que clamam pela ditadura militar e que percebem no movimento dos caminhoneiros uma oportunidade para pastar e relinchar a vontade. Mas somente se sentem a vontade por duas razões: primeiro porque o movimento dos caminhoneiros é capaz de paralisar praticamente o país, dado o peso (uma burra opção feita ali nos anos 1950 em favor da indústria automobilística) do transporte rodoviário, gerando profunda insegurança na população; segundo, porque os caminhoneiros são, como regra, politicamente conservadores. Não vamos nos alongar demais nisso, mas assim como motoristas de táxi, esse grupo de caminhoneiros que se vê como autônomo tende a perceber a sua condição de maneira cada vez mais individualizada e dependente dos seus méritos pessoais. Para esses grupos qualquer modificação na “ordem” é uma grande ameaça. Politicamente, possuem disposições bastante similares às da pequena burguesia.

É a soma das disposições políticas mais gerais dos caminhoneiros e dos alucinados com camisa da CBF que faz aparecer como algo forte a ideia da “intervenção militar”, ainda que não haja militares dispostos a fazê-lo e nem haveria razão para tanto.

Por fim, restou um grupo, esse com posições mais progressistas, de esquerda, que se dividiu na análise do processo. Alguns viram ali apenas o locaute; outros um movimento dos trabalhadores apenas; nos extremos, teorias da conspiração diversas sobre um movimento orquestrado para a instalação de uma nova ditadura ou a possibilidade de expandir a greve para outros setores a fazer a revolução socialista. Enfim, uma porção de análises que não conseguem lidar, no geral, com as contradições do movimento mas, principalmente, com dados da realidade objetiva muito mais simples e notórios.

Na minha perspectiva não vivemos uma crise que vai além das reivindicações justas de um grupo de trabalhadores e da fusão deles com os interesses mais imediatos de empresários que pretendem arrancar vantagens de um governo fraco, ilegítimo e que nada tem mais a perder. Que os efeitos dessa paralisação são grandes todos estamos vendo. Mas não há razão para enxergar aí nem o aprofundamento do golpe, muito menos a revolução. No primeiro caso, porque caminhamos para o fim desse governo e a possibilidade da realização do projeto golpista: passar às mãos do PSDB via eleições o comando da agenda neoliberal no país, com Lula preso e sem adversários mais difíceis de serem batidos.  No segundo caso, ficar dizendo, à esquerda, que o movimento dos caminhoneiros abre a possibilidade de fazermos uma greve geral e, daí, derrubarmos o governo golpista e instalarmos um governo revolucionário e popular é apenas sonho do revolucionarismo pequeno-burguês. Nós, da esquerda, fomos incapazes de evitar o golpe dessa quadrilha mequetrefe. E não evitamos o golpe porque não quisemos: não tivemos força política e base social para isso. É a partir desse tipo de constatação objetiva e concreta que precisamos pensar a realidade e as possibilidades que temos nessa conjuntura e no futuro próximo.

Claro que as imprevisíveis reações da população podem mudar as coisas e ninguém aqui tem bola de cristal ou pretende prever o futuro (na Praia Grande – SP, por exemplo, tem ocorrido saques a supermercados e “arrastões”). Mas a tendência é que logo as coisas retornem aos seus lugares, com as condições de vida dos trabalhadores brasileiros piorando, como já vinha ocorrendo. Fica a necessidade de lutar para que ocorram as eleições de outubro e emplacar uma derrota eleitoral ao menos nos golpistas: essa é, na correlação atual das forças, a hercúlea tarefa da esquerda consequente e de setores progressistas do Brasil. O resto é conversa fiada, pataquadas de extremos da esquerda e da direita.

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1948-2018: O rastro de sangue do facho-sionismo

João Quartim de Moraes

Na aldeia palestina de Deir Yassin, fincada numa colina rochosa na orla oeste de Jerusalém, um pequeno grupo de três pedreiros, três talhadores de rocha e um motorista de caminhão estavam terminando seu turno de vigilância durante a noite de 8 para 9 de abril de 1948. Não havia como não se sentir ameaçado.

Entre dezembro de 1947 e março de 1948, muitas outras aldeias (Beld Shaikh, Sasa, Karf etc.) haviam sido varridas do mapa pela Haganah, a principal organização armada clandestina sionista, e por dois esquadrões da morte especializados nos métodos mais cruéis e covardes de ação terrorista, Stern e Yrgun, nos quais os futuros primeiros-ministros israelenses Begin e Sha­mir começaram suas peculiares carreiras militantes. Decididos a conquistar o máximo de terreno para o Estado que pretendiam proclamar unilateralmente no dia 15 de maio de 1948, data fixada pela ONU para o término do mandato britânico, os destacamentos de choque sionistas estavam utilizando a fundo a superioridade de sua organização militar e de seus armamentos, ampliaram a escala de sua ofensiva.

Ás 4:30 da madrugada de 9 de abril, tropas de assalto combinadas do Stern e do Yrgun irromperam em Deir Yassin. O grupo de vigilância as viu chegar e deu o alerta. As armas de que dispunham os moradores eram irrisórias, comparadas às dos assaltantes. Mesmo assim eles resistiram cerca de duas horas, até esgotarem as munições. Começou então uma orgia de bestialidade que sequer poupou mulheres grávidas, cujo ventre foi aberto a facadas. Duzentos e cinquenta e quatro palestinos foram assassinados; dezenas de meninas foram estupradas, um recém-nascido foi arrancado dos braços de sua mãe, jogado ao chão e pisoteado. A obra de destruição da aldeia foi completada com dinamite. (Um relato mais circunstanciado da chacina de Deir Yassin está no livro Ô Jerusalém, escrito pelos jornalistas Dominique Lapierre e Larry Collins; há tradução em português). Os depoimentos dos poucos sobreviventes aos policiais britânicos foram reunidos por Sir R. C. Catling, diretor-geral adjunto do Criminal Investigation Department britânico na pasta “secreta e urgente” nº 179/11017/65. Eles contêm pormenores horripilantes.

Setenta anos depois, em 14 de maio passado, a execução em massa de palestinos de Gaza mobilizados contra a transferência para Jerusalém da capital de Israel foi mais rápida. O exército israelense simplesmente atirou na multidão desarmada, matando sessenta e um manifestantes, que se somaram aos que já vinham sendo sumariamente executados desde o início dos protestos em 30 de março, num total de pelo menos 112 palestinos, entre os quais 14 crianças. A responsabilidade por mais este crime contra a humanidade cabe não somente ao governo facho-sionista, mas também a Trump, que tomou a decisão provocadora de transferir para Jerusalém a embaixada estadunidense, violando acintosamente as Resoluções 476 e 478 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, de agosto de 1980, que respectivamente declararam a parte oriental da milenar capital da Palestina território ocupado por Israel e convidaram as embaixadas então instaladas em Jerusalém a se transferir para Tel Aviv. Todas acataram a resolução. Essa vitória diplomática e moral de um povo esbulhado e humilhado é agora torpedeada pelo Al Capone da Casa Branca.

O covarde massacre de Gaza foi condenado mesmo pelos satélites europeus da Otan. Só os estafetas de Trump e os funcionários do Estado terrorista atreveram-se a tentar pôr a culpa no Hamas, que governa Gaza (transformada num enorme ghetto bloqueado por terra, mar e ar pelas forças armadas israelenses), de ter usado crianças como escudos humanos. Mesmo a supor que houvesse um átomo de verdade nessa falácia, a chuva de balas foi indiscriminada e todas as vítimas foram atingidas dentro dos limites da faixa de Gaza.

Nem toda arrogância é cínica, nem todo cinismo é boçal, mas o cônsul de Israel em São Paulo juntou esses três maus traços de caráter declarando à revista Veja que “Se quiser, Israel poderia destruir Gaza em apenas uma hora” (16 de maio de 2018). Não sabemos se o mau português é do Cônsul, da Veja ou dos dois juntos, mas a ambiguidade do enunciado sinaliza a torpeza do raciocínio. Dizer: “se, Israel quisesse, poderia”, estaria sugerindo que Israel não quer extermínio rápido, portanto que a ideia é limitar-se a matanças esporádicas; dizer: “se Israel quiser, poderá”, é ameaçar diretamente. O Consulado israelense e o periódico de extrema direita ficaram no meio do caminho, não dizendo nem uma coisa nem outra, mas deixando confusamente entender ambas. Eles insultam não somente os princípios humanitários consagrados na infelizmente impotente Carta da ONU, mas também a inteligência alheia. Qualquer força aérea pode destruir cidades indefesas em uma hora, talvez em meia hora. A Luftwaffe nazista fez isto na aldeia basca de Guernica em 1937. Israel, que dispõe de armas nucleares toleradas pela “comunidade internacional” (=o bloco imperialista e seus satélites) poderia, seguindo o exemplo de seus protetores estadunidenses em Hiroshima e Nagasaki, aniquilar grandes concentrações humanas em um minuto. Não o fazem por duas razões complementares: os dejetos radioativos de uma explosão nuclear em sua fronteira também os atingiriam e, sobretudo, potências que não comem na mão do Pentágono dispõem de arsenais nucleares bem maiores do que os deles. Tal é a lógica da força bruta de destruição maciça.

A continuidade do golpe e a contradição principal

Cesar Mangolin

O golpe ainda não se completou. O caráter de classe do golpe e, portanto, a sua razão fundamental, vai agora aparecer de maneira mais escancarada, afinal se trata de garantir a consumação dos interesses do consórcio que reuniu a alta finança, a burguesia associada, grandes corporações estrangeiras e a geopolítica mundial em favor dos EUA, contrário às políticas do ciclo dos governos petistas no sentido de perceberem a possibilidade de ganhos impedidos por certa preponderância de uma fração da burguesia que prestava os serviços voltados ao desenvolvimento de alguns setores fundamentais e pelas políticas de desenvolvimento social, que destinavam porções da riqueza produzida socialmente e da arrecadação à melhoria das condições de vida de populações secularmente deixadas na linha da miséria e da pobreza, bem como para o investimento em serviços públicos fundamentais para essa população, como a educação pública e a saúde. Esses setores do consórcio golpista não deixaram de lucrar bastante com o ciclo de governos encabeçado pelo PT: apenas sabem que é possível ganhar muito mais e recolocar o Brasil na condição de um simples satélite do imperialismo, um país da periferia do sistema que serve ao centro, quebrando as pretensões de uma autonomia na política internacional, estabelecidas e ensaiadas pela entrada no BRICS e por acordos bilaterais com países em condições similares de desenvolvimento e ocupando lugares comuns no quadro internacional.

A pequena burguesia histérica aparecerá agora como um problema a ser resolvido. Os criadores da onda fascistizante precisarão dar conta do monstro que criaram e deverão procurar as formas de fazê-lo sair de cena.  O consórcio nacional e internacional da burguesia golpista precisa se desvencilhar das motivações da base social que criou para o golpe. O suposto combate à corrupção deu impulso ao discurso moralista e repleto de preconceitos e ódio, levou a uma histeria coletiva, criando um amontoado de gente para o qual não há história, não há lei, não há nada: apenas a ação de cães raivosos, repetindo uma ladainha decorada, sem  sentido e com ações cada vez mais violentas. Será uma tarefa árdua e não sem riscos e contradições a tentativa de apascentar sua récua, uma vez que ocorreu a prisão daquele que oferecia maior risco ao projeto golpista, supostamente a situação eleitoral mais tranquila.

O golpe, como todos sabem, nada teve com o combate à corrupção. Ou teve, mas da maneira inversa daquela que entenderam seus cães de guarda, como foi bem expresso naquele áudio do senador Romero Jucá, que explicitava a necessidade de reunir, além dos já citados setores, também os nossos seculares bandidos que vivem da política institucional, os militares e o judiciário. Tratava-se de atender aos interesses diferentes desses setores todos, mas que apontavam para uma necessidade imediata: a derrubada da presidenta Dilma Rousseff, cujo governo permitia a investigação dos crimes de corrupção. Essa era a sangria que deveria ser contida, segundo Jucá: era necessário derrubá-la para que todos eles não fossem pegos, já que não conseguiram derrotar esses governos nas urnas. Sempre é bom insistir que foram os méritos dos governos de Lula e Dilma e não os seus defeitos que foram julgados e condenados. Nossa história possui exemplos de momentos similares, em que avançamos nas conquistas sociais e temos, na sequência, uma saída golpista, que lança tudo ao chão e nos obriga a recomeçar quase do zero. Podemos pensar na crise que envolveu as duas deposições de Vargas (a segunda mais dramática, sem dúvida, com o suicídio do presidente) e a conjuntura do começo da década de 1960 e a deposição de João Goulart, seguida da instalação da ditadura civil-militar que persistiu até 1985, de triste memória em todos os aspectos.

Não há ninguém desinformado nessa história. Ao concentrarem seus esforços e mostrarem seus dentes apenas para os casos de corrupção envolvendo o PT e outros participantes do governo, todos fizeram vista grossa à continuidade das práticas bastante conhecidas de todos nós. Nesse caso, há a complacência com alguns partidos e políticos e a severa perseguição daqueles que representam o ciclo de governos anterior. Perseguição que chega ao cúmulo da mentira e de julgamentos que não têm por base as provas necessárias para condenação. Inclusive fazendo do STF um órgão que resolve legislar, extrapolando o seu papel e indo contra a Constituição Federal, o que escancara a fraude e o golpe, além de detonar uma crise dentro do próprio judiciário.

Mas tudo isso apenas revela o caráter de classe do golpe, bastante distante dos discursos que têm motivado o ascenso de grupos e militantes de uma nova direita, que não entende bem o que isso significa. O golpe ainda não terminou. A ideia é que ele termina com a passagem do governo do Brasil ao PSDB. Isso exige uma autocrítica: há pouco menos de um ano, respondi umas perguntas feitas pelo camarada Eduardo Vasco, para o Pravda. Vivíamos o momento das denúncias contra Temer e os rumores de um golpe dentro do golpe. Ali, acreditei que o presidente golpista não seria capaz de se sustentar e que cairia em breve. Errei feio: não contei com a capacidade de articulação e com o poder de compra do “apoio” necessário na mídia, no Congresso e no Judiciário (com promoções e bilhões distribuídos de acordo com a necessidade do momento). Outro erro cometido, claro, foi a tentativa de “prever” o futuro, como algo determinado, e não as possibilidades postas e as probabilidades.

Pois bem, errei ao acreditar que o golpista Temer cairia ali, mas não insisto na compreensão de que a consumação do golpe passava, necessariamente, pela entrada do PSDB no governo. Faltou ali pensar numa outra opção tática do próprio PSDB: entrar com um mandato tampão após uma saída de Temer poderia complicar as coisas nas eleições de 2018. Melhor esperar e cumprir outros passos importantes para garantir a vitória eleitoral (ou tentar fazê-lo pelo menos), incluindo aí uma dúbia posição diante da população com relação ao governo golpista de Temer (falo da tentativa de parecer não pertencer ao governo, enquanto lhe dá base), passando, obviamente, pela prisão de Lula e impedindo sua candidatura.

Por que o PSDB? Repito aqui coisas já ditas naquela entrevista. O PSDB é o fiel escudeiro no país dos interesses do capital estrangeiro, da alta finança internacional e da burguesia associada. Foram quadros do PSDB, como José Serra, que estiveram nos EUA antes do golpe ajustando as coisas e prometendo a entrega da Petrobras. O PSDB é o partido que assume  como programa a agenda das políticas neoliberais e a ideia de que a economia brasileira deve caminhar, necessariamente, atrelada e submetida aos interesses e grandes lances do capital estrangeiro.  FHC em seus dois mandatos aplicou fielmente a cartilha do FMI, do Banco Mundial e do Consenso de Washington. A histórica foto de FHC com a língua de fora, qual cachorrinho manso, enquanto Clinton (que era presidente dos EUA), por trás,  se apoiava em seus ombros, é uma boa síntese da relação do PSDB com o imperialismo. Não foi a toa que Serra seguiu, ainda que com incompetência patente e grosseiramente assumida,  para o Ministério das Relações Exteriores logo após o golpe. O PMDB, Michel Temer  e sua camarilha não são plenamente confiáveis.

O golpe não pode ser entendido, portanto,  como uma pendenga entre ladrões de galinhas ou uma disputa entre partidos: em síntese (e é necessário insistir nisso!) o golpe deve ser compreendido como a derrubada pela força (já que não tiveram a capacidade de derrotá-lo nas urnas,como ocorreu na Argentina, por exemplo) de um ciclo de governos cujo programa para formação social capitalista brasileira tinha pretensões  neodesenvolvimentistas. Podemos reunir uma série de frações burguesas  que não estavam plenamente favorecidas por esse programa e de interesses  diversos que explicam o golpe, tendo a crise mundial do capitalismo como pano de fundo: os interesses das frações da burguesia brasileira associada , os interesses das grandes corporações internacionais (pelo petróleo brasileiro, por exemplo),  a política externa mais autônoma e a aproximação do Brasil de um eixo fora das asas dos EUA e a formação do BRICS, a ameaça de democratização e, ao mesmo tempo, de um marco regulatório dos meios de comunicação, os interesses de partidos e políticos ligados às históricas benesses do seu próprio aparelho de Estado e as sucessivas derrotas eleitorais. Isso tudo formou uma unidade de ruptura, ainda que com interesses difusos, mas uma unidade que tornou o golpe viável, após uma intensa campanha midiática e a geração de uma crise política que começou a afetar inclusive a economia.

Mas, retornando ao início do texto, o golpe possui, como qualquer golpe, uma dessas frações ou um desses grupos como dominante e, em última instância, será aquela fração que precisa se impor no processo. O processo eleitoral tende para o favorecimento da vitória de um grupo de maior e estrita confiança para fazer com que os interesses do grande capital internacional e da burguesia local associada prevaleçam sobre os demais. Os fantoches desses interesses pertencem ao PSDB. É a ideia de um mandato, finalmente,  conquistado pelo voto, após quatro derrotas eleitorais.

Mas, como diria Garrincha, é preciso combinar essa tática com os russos… Ainda que blindados pela grande imprensa, os tucanos possuem dois grandes problemas: o primeiro é que não possuem força política suficiente para escapar do jogo “republicano” da compra de apoio, muito menos escapar do loteamento do patrimônio público para que seja sangrado pelo grosso dos nossos políticos profissionais e seus partidos, verdadeiros bandidos que provam todos os dias que o crime, bem organizado ou não, sempre compensa. Aliás, a ausência da força política se deve ao fato de que a tucanagem  participa ativamente e com os seus melhores quadros do mesmo esquema. O segundo grande problema é a corja fascista gerada por esse processo, que não possui, necessariamente, uma direção bem consolidada e pode muito bem sair totalmente de controle, como vimos recentemente nos eventos do sul do país e temos cotidianamente notícias de suas barbaridades e violências. Essa gente tende a não ver o PSDB como o vê a alta finança internacional e a burguesia associada.

Enfim, temos um quadro bastante complicado. Penso que, tendencialmente, devam começar a aparecer nos meios de comunicação “denúncias” envolvendo o presidente golpista de plantão e outros candidatos à presidência. Também deve ser possível que, em breve, os tucanos declarem o rompimento com o governo, num lance apenas midiático. Mas o fato mesmo é que a prisão de Lula apenas escancara o caráter de classe do golpe e abre uma etapa, com grandes dificuldades e com o imprevisível e imponderável jogando um papel importantíssimo: algumas faíscas podem resultar num grande incêndio. Isso porque poucas vezes estivemos tão próximos de fazer explodir o barril de pólvora que é a formação social brasileira e seus seculares mecanismos de manutenção da exploração popular. O barril está sem a guarda devida, pois falta quem seja capaz de aglutinar as forças necessárias para garantir a hegemonia do processo.

Correndo o risco de parecer banal, penso ser necessária muita atenção para não morder as iscas que pretendem precipitar as organizações de esquerda às ruas com disposições mais radicais em condições acentuadamente desiguais de luta. Vale manter a objetividade e compreender a correlação de forças. Na nossa conjuntura, a contradição principal (que se expressa na oposição entre as frações burguesas que encabeçaram o golpe e os interesses do desenvolvimento nacional e autônomo e da melhoria das condições de vida dos trabalhadores) ainda passa pela necessária articulação de uma frente capaz de derrotar a tucanagem e congêneres nas eleições de outubro. Uma vitória eleitoral de forças de esquerda ou articuladas numa frente mais ampla e comprometida com a retomada e o avanço progressista das políticas anteriores derrotaria o golpe e colocaria para as forças de esquerda condições mais propícias para a abertura de uma nova fase de lutas, qualitativamente diferente.

O pastorzinho e seu rebanho de braços dados com o fascismo cotidiano.

Cesar Mangolin

Escrevi um pequeno texto e publiquei por aqui faz algum tempo. Alguns anos, aliás. O título era “O infeliz Feliciano não fala ao vento”. Replico alguns trechos daquele texto aqui. Naquela ocasião o infeliz havia tentado justificar a suposta inferioridade dos negros e do continente africano (!) a partir de uma passagem bíblica, que indicava que deus os havia amaldiçoado. O sujeito é bom em falar besteira e propagar violência: disse coisas similares sobre homossexuais, sobre portadores de HIV, sobre as mulheres. Nesta semana, o infeliz pastor de asininos chamado Feliciano, que é deputado federal, acusado de estupro, de inteligência questionável e de valores reprováveis voltou à carga, fazendo gracejos com a execução da vereadora do PSOL do Rio de Janeiro e com os que militam à esquerda.

É sempre de lamentar qualquer pessoa que comemore ou faça graça com a morte de alguém. Principalmente nas condições e pelas patentes motivações da execução da vereadora. De lamentar mais ainda são aqueles que se apressaram a publicar uma série de informações mentirosas sobre a vereadora Marielle Franco, como se justificassem a sua morte. Mesmo que todas as mentiras publicadas fossem verdade, ainda assim, comemorar ou justificar a morte de alguém e naquelas condições é algo que revela caráter duvidoso, valores rebaixados e uma violência ilimitada.

Claro que essa violência partiu de mais gente e não apenas dessa parcela de cristãos estúpidos que segue gente como esse pastor e que consegue conciliar cristianismo, safadeza e violência que faria inveja a qualquer membro da família do papa Alexandre VI, o Bórgia. Disposição, aliás, que coloca cristãos ao lado do que há de mais reacionário, antipopular e violento no país, como a síntese da estupidez personificada no nazi-cristão Bolsonaro (não esqueçam que ele foi batizado pelo também pastor – e ex-candidato à presidência – Everaldo nas águas do Rio Jordão!). Não é por acaso que seu candidato a vice já foi escolhido dentre eles: um pastor selecionado num chiqueiro repleto de outros pastores imbecis tanto quanto o cabeça de chapa e seus seguidores.

Há, sem dúvida, uma confluência ideológica entre os nossos neofascistas e uma parcela dos cristãos, assim como dentre uma considerável parcela da pequena burguesia, que serve de base social ao retrocesso que vivemos.

Como escrevi na primeira oportunidade, o que chama mais a atenção é que o tal pastor não fala ao vento: fala para um rebanho que parece ser tristemente grande. Ele foi feito deputado com alguns milhares de votos; tem seus fiéis; representa não apenas a si próprio ou a uma pequena comunidade, mas faz coro com milhões de vozes, de outros tantos pastores e seguidores cegos de uma fé estúpida, porque preconceituosa, excludente e baseada em preceitos questionáveis. O pastor não fala ao vento porque é expressão de uma parcela considerável de brasileiros, cristãos ou não, que vêm os negros e homossexuais como excrescências,  assim como vêm os mais pobres como “gente diferenciada” e, fundamentalmente, levam ao extremo uma violência dirigida contra os mais pobres, mais vulneráveis socialmente e contra aqueles que se levantam e lutam contra as desigualdades que vivemos.

Eu estou convencido que é um traço cultural nosso, herança ainda da nossa formação colonial e replicada e ajustada às transformações pelas quais o país passou nesses cinco séculos. Um traço característico de uma formação realizada em todos os sentidos através da violência e da exploração bestial de vastos contingentes da população. E não é somente violência direta e explícita. É também o que nos faz permissivos com os mais ricos e implacáveis com os mais pobres; é o que faz considerar com pesos distintos as ações que partem de classes distintas, que são praticadas por grupos mais ricos ou mais pobres: o uso de drogas pode ser glamouroso ou ser um vício detestável; a orientação sexual e as parcerias múltiplas podem ser festejadas ou reprovadas; mesmo a corrupção pode ser suportada ou considerada o mal do século.

Nosso país ainda é um país de miseráveis e pobres. Tanto no escravismo, quanto com o advento das incríveis oportunidades de diversificação da miséria trazidas pelo desenvolvimento capitalista, tratou-se de justificá-la atribuindo aos que padecem dela a responsabilidade. Mesmo dentre os que discordam do tal pastor de tolos há um grande contingente  que  faz o discurso liberal de que o acesso à educação resolveria esses problemas. Ora, isso nada mais é que atribuir a miséria à ignorância, portanto, a uma responsabilidade dos próprios miseráveis que poderiam ser salvos pelas palavras de um bom e bem intencionado professor que, no geral, pensa como um pequeno-burguês e está carcomido até às entranhas por esses preconceitos todos.

A pequena burguesia (ou a “classe média”), no seu combate intensivo aos programas sociais de distribuição de renda, costuma utilizar a frase do “Não dar o peixe, mas ensinar a pescar”. Novamente, por detrás da frase, temos a atribuição da responsabilidade da miséria à ignorância. Uma inversão comum, portanto, visto que a ignorância decorre da miséria, e não o contrário. Atribuir ao violentado a responsabilidade da violência que sofre é um recurso cotidiano das nossas relações. Triste exemplo são as violências de todo tipo contra as mulheres e as tentativas de justificá-las. Outro exemplo? Tente tratar do tema do racismo com qualquer grupo e conte no relógio: garanto que em menos de três minutos a frase “mas os negros são mais racistas”, a ideia do racismo reverso e a triste noção do suposto vitimismo aparecerão e embolarão o tema.

A ignorância não é propriedade privada dos miseráveis: a maior parte do povo brasileiro padece dela, mesmo os círculos intelectualizados, em todas as classes sociais. Isso não se resolve com educação formal. O que está enraizado secularmente no viver e no pensar não se resolve mudando apenas o pensar em um de seus níveis, como o acúmulo das informações recebidas por vias formais. Há um nível mais profundo do pensar, aquele que é determinado pela vida, que justifica o princípio da filosofia materialista que afirma que pensamos como vivemos. Sair da ignorância significa, portanto, mudar o viver, que muda o pensar.

Parece que a maioria das pessoas, embora tenham as informações necessárias que rompem com os preconceitos como os expressos pelo pastorzinho da vez, não é capaz de sintonizar a vida e o pensamento. Lá no fundo, determinados pela vida prática, balançam a cabeça como jumentos concordando com o pastor. Seu público é, infelizmente, muito maior do que se pensa.

Mas há um bom sinal nisso tudo: a radicalização do discurso desses líderes religiosos, políticos medíocres e movimentos de moleques fascistoides, escancarando seus preconceitos e informações falsas, leva a uma parcela considerável dos que ainda acreditam e replicam essas bobagens os elementos primeiros do rompimento, ainda confuso, com a moral de rebanho. O ápice do que foi construído sobre a mentira é também sinal do começo da queda.

Os que lutam como Marielle Franco pelo “belo, pelo justo e pelo melhor do mundo”, como escreveu Olga Benário, assistirão a derrota do pastor da vez e seus congêneres de um local privilegiado.

 

 

 

 

Moralistas imorais

João Quartim de Moraes

 

Não somente entre os defensores das causas sociais e do desenvolvimento nacional autônomo, militantes da democracia, da causa do povo e do socialismo, mas também entre os brasileiros honrados, para os quais a coisa pública não se confunde com a “cosa nostra”, é fundada e forte a convicção de que o processo de Lula configura uma escandalosa farsa judiciária.

Juristas dignos e articulistas de jornais de prestígio internacional consideraram a incomum celeridade com que foi marcado o julgamento de Lula em 2ª instância (após sua programada condenação em 1ª instância) um signo infalível de um plano sistematicamente articulado para impedi-lo de se candidatar a presidente. A sintomática unanimidade dos togados de Porto Alegre confirmou que estavam recitando um “script” que padecia, antes mesmo de qualquer consideração propriamente jurídica, de um vício de raciocínio que os lógicos chamam petição de princípio: dar como demonstrado aquilo mesmo que teriam de demonstrar.

A sinistra paródia de justiça de 24 de janeiro passado inscreve-se no “vale tudo” da direita para impedir o retorno de Lula à presidência. A lógica é perversa, mas simples: se o golpe judiciário de 2018 não completar o golpe parlamentar de 2016, terá sido em vão que o bloco reacionário neoliberal do Congresso e seu braço judiciário-policial violentaram o espírito das instituições constitucionais, agrediram os interesses nacional-populares e expuseram seu cinismo e hipocrisia à execração da opinião democrática brasileira e internacional.

A audácia dos rábulas judicantes é proporcional à percepção de sua própria força. Sabem que são abominados pela importante parcela dos eleitores de quem eles pretendem confiscar o direito de escolher o presidente, mas também sabem que contam com o apoio incondicional do “mercado” (entendamos, dos aventureiros, dos agiotas e de outras sanguessugas da especulação financeira) e da multimilionária “indústria” da intoxicação mediática. Contam também com o apreço da cúpula das Forças Armadas, demonstrado na condecoração da dupla Moro/Luciano Huck (Lava/Jato/Rede Globo) em abril de 2017 com a Ordem do Mérito Militar. Nesta comemoração, discursando em presença de Temer, o general Villas Boas, comandante do Exército, enfatizou que o Brasil passa por uma “aguda crise moral”, com “incontáveis escândalos de corrupção” que “comprometem o futuro”.

Seria importante aprofundar as ideias do general. O futuro se faz no presente. Que futuro ele quer com Temer presidente? Sem dúvida, a principal homenagem do Exército era para a dupla caipira Moro/Luciano Huck. Mas Moro deu ajuda decisiva para Temer continuar na presidência. Os dois, o juiz e o presidente, são parte do problema e não da solução da “aguda crise moral” que inquieta o comandante do Exército. Basta lembrar que no final de novembro de 2016 o inquisidor de Curitiba anulou 21 das 41 perguntas enviadas pelo cleptobíblico Eduardo Cunha a seu parceiro Temer, testemunha de defesa, considerando treze delas “inapropriadas” e oito sem “pertinência com o objeto da ação penal”.

Denunciando esta decisão, Jeferson Miola explicou no artigo “Por que Moro anulou as perguntas de Cunha sobre Yunes e Henriques?” (reproduzido em 16 de dezembro de 2016 pelo portal Vermelho), que as perguntas vetadas pediam, entre outros, esclarecimentos sobre a denúncia de que “um dos pagamentos pedidos por Temer, de R$ 4 milhões” foi efetuado em 2014 “na sede do escritório de Advocacia José Yunes e Associados”. Cunha queria também perguntar a seu velho parceiro Temer se, conforme delação de Márcio Faria, diretor da Odebrecht, ele confirmava ter participado de uma reunião em seu próprio escritório, em 2010, com João Augusto Henriques, “lobista” do PMDB (preso em setembro de 2015 por atos de corrupção na Petrobrás), com o objetivo de fixar o montante das propinas a serem distribuídas para o PMDB. É este um procedimento padrão dos justiceiros da Lava Jato: fechar os olhos para os crimes de seus parceiros políticos da direita e despejar sua sanha punitiva nos adversários de esquerda.
Ao condecorar o falso Catão da inquisição curitibana, o general não podia ignorar a maneira facciosa com que ele vinha conduzindo suas duvidosas atividades. Moro, ademais, integra o vasto pelotão de juízes que recebem substancial auxílio moradia mesmo para atuar na cidade em que moram em casa própria. Manipulam imoralmente a lei para se locupletar. Que “moral” ele tem para defender a moralidade? É exatamente o que fizeram e continuam fazendo os golpistas: usam a letra da lei para aniquilar seu espírito.

A parcela majoritária do eleitorado brasileiro, que sofre as consequências dessa malandragem burguesa e luta decididamente contra os que estão confiscando seus direitos, inclusive o de votar em Lula, não está em “crise moral” alguma. A crise, ou mais exatamente a deliquescência moral, está no campo da burguesia, dos espertalhões da finança, dos marqueteiros milionários e também dos que acionam a máquina policial-judiciária em nome de valores morais de que eles próprios carecem.

“Nós limpamos a bunda da sociedade!”

Cesar Mangolin

Relanço aqui uma reflexão de alguns anos em comemoração ao dia dos professores e, porque não, ao dia das crianças: professores e estudantes podem refletir sobre nossa função e nossas ilusões. O texto é o mesmo de 2010, com poucos retoques. O título continua sugestivo…

A frase que nos serve de título foi dita por uma professora de uma escola de ensino infantil, que reclamava das suas precárias condições de trabalho e da falta de um material básico para trocar as fraldas das crianças: luvas descartáveis.

Para ser sincero gostei muito da frase. Talvez essa seja a melhor síntese, no final das contas, do papel dos professores da educação formal, em todos os níveis: limpar a bunda da sociedade! Lendo até o final você vai entender o porquê.

A frase não é polida e nem gentil, sem dúvida. Mas defendo que a palavra falada e escrita permita que se entenda claramente a intenção daquele que fala ou escreve. Tenho certeza que muitos já compreenderam o texto todo lendo apenas a frase em questão. Portanto, abaixo a polidez!

Já insisti nesse espaço no papel reprodutor da educação formal. O filósofo Louis Althusser, que tratou a escola como um aparelho ideológico fundamental das formações sociais capitalistas, chamava a atenção para o fato de a escola aparecer como algo inquestionavelmente necessário para a nossa vida, assim como a igreja parecia sê-lo nos tempos do feudalismo. Daí que dificilmente alguém pensa na possibilidade de sua eliminação. Sempre vem a pergunta: “mas  o que colocamos no lugar?” –  Que tal refletir um pouco sobre a possibilidade de não colocar nada em seu lugar? Parece impossível, não é? Daí os pedagogos e outros profissionais bem intencionados passarem a vida tentando e propondo formas de arrumar essa máquina de moer gente. O problema é que a escola não tem defeito algum: cumpre, exatamente, seu papel.

Na verdade, poucos conseguem perceber a insanidade do processo escolar. Para os que passam por todos os seu graus, são mais ou menos 17 anos de frequência regular, quase que diária, desde a mais tenra idade até a vida adulta. Caso se queira somar aí a pós-graduação, podemos incluir pelo menos mais 6 anos.

Nela são transmitidos os condicionamentos básicos, mais que a construção de conhecimento: uma “visão de mundo” que torna naturais e razoáveis as relações sociais de produção capitalistas, o reconhecimento e a obediência cega às hierarquias, ficar preso e fazer coisas nas quais não se vê sentido,  enfim, aprende-se a viver nesse mundo e aprende-se, pela ideologia do mérito, a aceitar a distribuição que a escola opera para o “mercado” de trabalho. Indivíduos, avaliados individualmente, que são apenas um número durante anos e convencidos de que são os únicos responsáveis por sua trajetória de vida, seu sucesso ou seu fracasso. Claro que sucesso e seu contrário também são ideologicamente construídos: significa o exercício de algum trabalho não-manual e a acumulação de determinada quantidade de riqueza material ao longo da vida. Os que não o alcançam aprendem a atribuir à sua própria incompetência individual a responsabilidade de seu trágico fim. É a ideologia do mérito pessoal e seus efeitos.

A verdade é que não existem postos de trabalho não-manual para todos, assim como não existe correlação entre o número de diplomados e as vagas abertas nesse grande comércio de carne humana que se chama, de forma equívoca, “mercado de trabalho.” Não havendo essa relação direta, ocorre o fenômeno do que prefiro chamar de sobrecertificação, no lugar da batida sobrequalificação. Isso porque falar de qualidade de ensino é sempre bastante complicado, gelatinoso e, geralmente, acaba despolitizado por um discurso tecnicista que pretende medir conhecimentos que seriam imprescindíveis (decididos por quem?).

Havendo um número de diplomados sempre crescente, as empresas passam a elevar a exigência de certificação para a ocupação de postos que, há pouco tempo, bastava o ensino fundamental. Por sua vez, essa elevação provoca a corrida aos bancos escolares e aos bancos das universidades, atrás do famigerado diploma, e isso alimenta uma grande máquina de fazer dinheiro para as instituições privadas, jamais a construção do conhecimento.

A obrigatoriedade de “estudar”, essa pena que deve ser cumprida pelo único crime de ter nascido, torna qualquer coisa que signifique construir conhecimento como algo chato, enfadonho, enfim, como qualquer coisa que não se faz quando se tem possibilidade de escolher. A escola, no geral, elimina a possibilidade e a vontade de construir conhecimento.

E quem são os agentes diretos dessa desconstrução? Quais são aqueles que, por vezes de forma inocente, transmitem ao longo da vida ideologia travestida de ciência à quase totalidade da população? Somos nós, os professores.

Pode-se argumentar que nem todos fazem isso. Mas não adianta coisa alguma não fazê-lo: a lógica do sistema é determinada por um objetivo, que é a necessidade da certificação. A obrigatoriedade da frequência, as notas nas malditas provas, são suportadas em nome da possibilidade de viver um pouco melhor, ou continuar a viver como se vive, mantendo posições, como faz a classe média.

Ainda que um professor se esmere na tentativa de reverter esse fim funesto, a lógica do sistema e seus demais colegas fazem o trabalho de coveiros. Busca-se a escola para poder conseguir uma inserção melhor nessas mesmas relações de exploração do trabalho, não para transformá-la. A ideologia do mérito pessoal movimenta as pessoas e é estimulada pelos professores e pelos “media” o tempo todo. Buscam a escola para lutar por sua escravidão, como se lutassem pela liberdade!

Está aí o segredo do aparelho escolar e sua importância: inculcar a ideologia dominante, distribuir os indivíduos nos postos de trabalho, garantir as condições de reprodução do modo de produção capitalista.

É como se a escola tivesse uma ação de tornar, na aparência, limpas e saudáveis essas relações. Através do processo escolar se justifica a exploração do trabalho e se faz creditar as posições às capacidades e incapacidades pessoais. A ordem capitalista é vista, portanto, como algo bastante razoável, justa e natural: os melhores avançam, os piores lhes servem.

A escola oculta as relações sociais reais, não permite que se compreenda a essência das relações sociais capitalistas, limpa a sujeira desse tipo de organização social, ou a oculta, pelo menos.

Os professores são linha de frente nessa tarefa: não limpam a bunda de gente, limpam a bunda da ordem capitalista, para que ela apareça como algo belo, justo e natural.

Curso sobre Darcy RIbeiro

Camaradas,
para quem quiser esquentar as férias estudando um pouco de maneira
mais tranquila: segue um interessante curso do ICHS sobre o grande Darcy Ribeiro e
sua obra “O povo brasileiro” . Interessante para quem já leu ou pretende ler ou se informar um tanto sobre o contexto da produção do antropólogo brasileiro, o lugar dessa obra no conjunto da sua produção e o passo a passo da obra em si. Participei do curso ao lado do meu camarada e amigo, prof. André Olobardi. Ficou bem legal e tem um certificado dado pelo ICHS. Abraço!
Há outros cursos disponíveis!!!