Determinismo ou liberdade absoluta? Nem um, nem outro (de um debate sobre Ética…)

Cesar Mangolin

Há uma tentativa de conceber a vida humana como determinada integralmente. Essa tentativa não é somente de algumas vertentes religiosas, mas também de algumas dadas concepções científicas. Sem dúvida, embora em campos bem distintos, a conclusão de cientistas e religiosos conflui para o mesmo veredicto: há um destino, uma pré-determinação, a ausência de autonomia do humano diante do inexorável caminho a seguir.

No campo da ciência há, de um lado, a defesa, à semelhança da física newtoniana,  de que vivemos sob um conjunto de leis imutáveis que nos conduzem inexoravelmente por caminhos previsíveis; de outro,  há a tentativa de naturalizar (daí o recurso à ciência) os comportamentos humanos, como se derivassem apenas de disposições genéticas, contribuindo para tanto muito pouco o contexto histórico no qual vivemos. Tal naturalização, que ocorre também no universo das ciências sociais (exemplo disso pode ser encontrado na economia clássica e no pensamento liberal em particular), tem na verdade outras intenções ou consequências: naturalizar o comportamento humano permite justificar determinados aspectos que, se fossem tratados como históricos, políticos, culturais exigiriam uma intervenção de outro tipo e, inclusive, solução: exemplos disso são as tentativas de justificar (naturalizando) as desigualdades sociais, a exploração de grupos étnicos, a exclusão de determinados grupos por gênero, orientação sexual etc..

De outro lado, há a tentativa de definir o humano como totalmente livre, ou seja, capaz de tornar sua existência apenas o que bem quiser que ela seja, tomando as decisões ou “escolhendo” o caminho a seguir. No geral, por detrás da ideia da liberdade absoluta está outro mito do nosso tempo: a figura do indivíduo, compreendido com um ser singular que existe antes da vida social, sendo as instituições estatais responsáveis pela preservação dos direitos naturais e individuais (vida, propriedade privada, liberdade). Podemos encontrar esse tipo de compreensão no final do século XVII, em John Locke, pai do pensamento liberal, no Segundo Tratado Sobre o Governo Civil, que  influenciou largamente tanto as ideias predominantes do movimento Iluminista, quanto a consolidação prática do ideário das revoluções que colocaram fim ao Antigo Regime na Europa Ocidental e na independência dos EUA, bem como nos movimentos de independência das colônias espanholas e portuguesas no século XIX. A permanência dessas ideias é compreensível, pois se tornaram funcionais à reprodução das sociedades capitalistas.

O fato concreto é que, indo para além das aparências e dos discursos fáceis de existencialismos diversos, podemos constatar com  alguma facilidade que não somos nem livres totalmente, nem determinados completamente. Isso não significa buscar o meio termo para a solução do problema.

É claro que somos pessoas singulares, mas essas singularidades orgânicas pertencem a um conjunto de relações sociais determinadas historicamente. É o que permite com que falemos dos humanos como “produtos do meio”, ou seja,  nós nascemos em lugares sociais que não escolhemos, em momentos históricos que não escolhemos e antes mesmo de tomarmos consciência de que somos seres vivos e que, como os demais, iremos morrer um dia, já somos amplamente influenciados e determinados  pelo conjunto dessas relações e pela maneira como nos inserimos nelas.  O “sujeito” é, antes de tudo, aquele que passou por esse processo de sujeição.

Pensar a liberdade humana, portanto, exige levarmos em consideração essas contingências. Devemos incluir para esse debate, categorias como possibilidade, probabilidade, necessidade e acaso. É o conjunto dessas circunstâncias que determinam nossa existência que abre  “leques limitados de possibilidades”, diante dos quais fazemos escolhas, nem sempre de acordo com a vontade individual. O acaso deve ser entendido aqui como acontecimentos ou o encontro aleatório de elementos que pode abrir e fechar possibilidades, tornar algumas delas mais prováveis e outras mais distantes. A liberdade de escolha é, portanto, contingente, relativa, jamais absoluta.

Para a reflexão ética do nosso tempo, assim como aparece em autores mais antigos, tais considerações deveriam nos levar à tentativa de orientarmos essas escolhas e decisões contingenciadas tendo sempre em vista a concretização do bem comum, ou seja, adotarmos o critério da escolha que menos afete negativamente o conjunto e que mais traga benefícios coletivos, fugindo assim do culto ao indivíduo e do egoísmo e enfrentando, de fato, os problemas que tornam as nossas relações sociais desiguais e violentas. Aqui, novamente, a figura mítica do indivíduo deve ser abandonada.

 

ABAIXO O GOLPE! – palavra de ordem para uma frente progressista, democrática e de esquerda.

Cesar Mangolin 

Penso que, ainda que por motivações distintas, as organizações da esquerda engoliram o golpe com alguma facilidade e com maior facilidade ainda dispuseram da presidenta Dilma e da legitimidade do seu mandato, independentemente de concordar ou de ser base ou não do governo.

Tivemos partidos que assumiram uma posição crítica e combativa, mas pelas expectativas eleitorais se viram, lamentavelmente, ao lado dos golpistas em diversas situações, no primeiro e no segundo turno; teve posição que pouco caso fez da presidenta Dilma: trataram o golpe como uma derrota momentânea e que pode ser resolvida com as eleições de 2018; e temos os casos daquela esquerda pequeno-burguesa que se divide entre posições curiosas: tem partido que festeja o golpe (assim como festeja a “primavera árabe” e anda pedindo mais bombas imperialistas sobre a Síria); tem daqueles que assumem uma posição moralista e apolítica: a incapacidade de compreender até agora o que está acontecendo permite apenas que apontem os dedos insistentemente para o PT como o grande culpado e sigam no mundo particular que construíram para si, esperando que a revolução venha lhes bater a porta; por fim, há daqueles que não podem tomar uma posição mais clara porque possuem vários pequenos partidos internamente, que vão desde as referidas posições anteriores (todas elas!), passando pela louvação da Lava Jato e até pela utilização de métodos heterodoxos de luta contra o golpe, que assume um caráter festivo e se expressa por cirandas e bundaços… A pequena-burguesia quando se encontra com a pós-modernidade acadêmica produz dessas coisas… E ela se diverte, sem dúvida. Deixemos os meninos brincarem.

Mas para quem não vê nada engraçado nesse processo, resta ainda a compreensão de que a pequena-burguesia é também a base social fundamental da reação: organizações que foram financiadas no suporte ao golpe agora se especializam em formar cães de guarda para, ao lado da polícia militar, atacar movimentos populares, como tem ocorrido com o movimento estudantil recentemente. A UNE, a UBES e o conjunto do movimento estudantil dão o exemplo de combatividade  ocupando escolas e universidades, câmaras municipais e, recentemente, inclusive o escritório da presidência da República em São Paulo. É por sua organização que sofre, prioritariamente, a repressão. Mas seguimos, com exemplos cotidianos e numa linha ascensional, com a violência praticada por forças do Estado e por seu aparelho jurídico. Não é mais o ovo da serpente: temos suas crias em plena ação.

A recente derrota eleitoral do campo popular, progressista e de esquerda é apenas o reflexo da bem sucedida ação do consórcio golpista montado a partir de 2013, reunindo partidos políticos, meios de comunicação de massa, profissionais do Direito cooptados, frações da burguesia, interesses imperialistas e do grande capital estrangeiro. Consórcio golpista, aliás, que não é uma exclusividade brasileira… O alto índice de abstenção eleitoral não revela simplesmente um descontentamento com a “política”: revela uma desesperança e um desprezo pelo processo institucional que foi amplamente desesperado e desprezado na farsa do impeachment da presidenta Dilma.

Como levar eleições a sério depois de tamanha carga propagandística que desqualificou por pelo menos dois anos o universo político institucional? Isso explica a eleição de excrescências como Dória em São Paulo, fazendo o discurso de que não é político. Curioso ver que candidatos de uma esquerda que se propõe como alternativa ao eleitorado próprio do PT tenderam a embarcar na mesma conversa, mas ali o resultado foi outro. Isso porque a política institucional foi arranhada, mas a esquerda foi, em conjunto, demonizada.

Não tenho dúvida que grande parte dessa massa da população que se absteve deve, inclusive, desaprovar o governo golpista de Temer e todas medidas tomadas contra os trabalhadores. Há um crise de credibilidade envolvendo os três poderes. Mas não tenho dúvida de que não tendem para a esquerda: essa massa descontente pode aderir facilmente a saídas mais à direita, a um fechamento maior disso que, retirado o verniz de legitimidade, se assemelha em tudo a uma ditadura, ainda que dando seus primeiros passos firmes.

Essa massa tende a aderir com alegria a um golpe dentro do golpe: a eleição indireta de um presidente, no ano que vem, assim que o TSE votar o impedimento da chapa Dilma – Temer… Esta é uma possibilidade daquelas que têm tudo para a concretização. Um presidente eleito pelo parlamento, para governar por dois anos. Um tucano, sem dúvida… Sejam quais forem as consequências desse ato,  fato mesmo é que representa um passo adiante no sentido do obscurantismo que tomou conta das instituições brasileiras. Dependendo dos desdobramentos, quem pode ter certeza de que teremos eleições em 2018?

Diante das condições adversas nas quais lutamos, me parece que vale uma mudança de palavra de ordem: ABAIXO O GOLPE!  e não FORA TEMER!… Justifico: o “fora Temer” é também pensado por setores dos próprios golpistas, que sonham com a condução de um tucano à cadeira presidencial por via indireta.  Nossa propaganda deve fazer a denúncia sistemática do processo do golpe, das possibilidades do golpe, apontar saídas progressistas, mas também defender a restituição da presidenta Dilma ao seu mandato conquistado pelo voto da maioria dos brasileiros: essa é uma condição fundamental se falamos em derrotar o golpe e retomar a “normalidade” institucional.

Isso não é o cenário dos sonhos, mas apenas lidar concretamente com a conjuntura adversa em que vivemos, sem os oportunismos de direita e sem desvios de esquerda. Poderíamos ter aí uma base para a formação de uma ampla frente, progressista, democrática e de esquerda: ABAIXO O GOLPE!; contra as medidas que ferem as conquistas dos trabalhadores; pela restituição legítima do mandato da presidenta e a punição dos golpistas.

 

Retrocesso civilizatório em São Paulo

JOÃO QUARTIM DE MORAES

As manipulações da operação policial-judiciária dita “Lava Jato”, dirigidas prioritariamente contra o PT, exerceram efeito desmobilizador sobre o eleitorado brasileiro. Não era exatamente o que Moro e consortes pretendiam: queriam quebrar a esquerda, oferecendo ao “senso comum” o cadáver moral dos principais dirigentes petistas. Acabaram fazendo estragos maiores. É próprio aos preconceitos generalizar para um grupo amplo, heteróclito e de contornos mal definidos a torpeza atribuída a uma de suas parcelas. O descrédito gerado pelos duvidosos métodos de “delação premiada” acabou afetando os “políticos” em geral, embora não nas mesmas proporções. O cartel dos donos da notícia incumbiu-se de proteger os participantes do golpe de abril 2016, maquilando de “estadistas” alguns dos mais imponentes e contumazes saqueadores de fundos públicos. Os golpistas também se beneficiam de crises agudas de amnésia que acometem a Polícia Federal, a Promotoria e os Juízes, com Moro à frente, cada vez que alguma de suas bandalheiras cai no radar das famigeradas delações premiadas.

Na falta de qualquer outra qualidade intelectual notória, o vitorioso candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo foi esperto o bastante para deixar em surdina sua condição de clone de Alckmin, apresentando-se como administrador, não como “político”. Logrou graças a esta camuflagem aproveitar a fundo o “efeito Berlusconi”: desmoralizados os partidos políticos, o milionário fez sucesso entre os coxinhas prometendo gerir a “coisa pública” com métodos patronais. Foi eleito no primeiro turno, com 3.085.187 votos, deixando bem atrás o prefeito Haddad, candidato à reeleição, que obteve 967.190 votos. O cartel mediático comemorou, eufórico, esta grande vitória eleitoral da direita, mas foi mais discreto a respeito de um claro e grave sintoma de desapreço pelas instituições vigentes: maior do que a vitória eleitoral da direita foi a dos 3.096.304 votos em branco, nulos e  abstenções.

A motivação mais forte desses votos negativos parece-nos decorrer do “efeito golpe”, que afetou principalmente o eleitorado de esquerda e o campo progressista em geral. A revolta contra a cassação do mandato da presidente Dilma, portanto contra a anulação de mais de 54 milhões e meio de votos, levou parcela importante desse eleitorado a expressar seu protesto contra a trapaça perguntando de que servia sufragar um candidato se o veredito das urnas estava à mercê das sórdidas manobras dos deputados e senadores golpistas.

São Paulo é um Estado em que o voto de direita é historicamente forte. Mas em seus grandes centros urbanos e industriais, os comunistas e mais tarde a esquerda petista abriram muitas brechas nas posições do campo dominante. A última delas foi a eleição de Haddad para prefeito da capital. Sem pretender avaliar o conjunto de seu desempenho, em seu ativo ficam duas iniciativas, ambas em defesa da civilização contemporânea: as ciclovias e a redução das velocidades nas marginais. Foi exatamente contra estas medidas civilizatórias que os candidatos da direita e do centro concentraram sua propaganda, brandindo o surrado chavão da “indústria da multa”.

Essa expressão sempre esteve na boca dos contraventores contumazes, que são muitos e perigosos. É preciso forte dose de má fé ou espessa ignorância para não admitir que a “indústria” largamente predominante no trânsito é a da morte. Voltar a permitir velocidades letais é inspirar-se do mote dos pistoleiros facho-franquistas: “Viva la muerte!, abajo la inteligência!”. Exagero? A correlação entre velocidade e mortes (ou lesões permanentes) está comprovada em todos os países que dispõem de estatísticas sérias sobre o trânsito. Nas vias marginais de São Paulo, entre julho de 2015 (quando entrou em vigor a redução da velocidade decretada por Haddad) e junho de 2016, as mortes caíram pela metade, de 64 para 31, relativamente aos doze meses anteriores. Quanto subirão com a anunciada opção preferencial pela alta velocidade?

As opiniões do futuro prefeito João Dória são curtas, incisivas e monotonamente iguais às da massa dos coxinhas: ódio ao PT, à esquerda, à redistribuição de renda em favor dos mais pobres; culto do “mercado”, da privatização, dos privilégios dos ricos, em síntese, ditadura da grana. Não gostamos desse pequeno Berlusconi, mas consideramos que as críticas devem ser objetivas: ele não foi o único a assumir a causa da barbárie ao tentar desqualificar as medidas civilizatórias que atacar Haddad adotou. Tanto o candidato evangélico quanto a candidata traíra, que chegaram em terceiro e em quarto lugar, respectivamente, usaram e abusaram da baixa demagogia anti multas.

Para quem não tem presentes à mente os dados da hecatombe do trânsito, basta notar que há quarenta anos atrás já constava que “o trânsito do Brasil é o que apresenta maior índice de mortes em todo o mundo, com 25,9 vítimas anuais para cada grupo de 10 mil veículos, segundo estatísticas de 1975, o que equivale a oito vezes mais do que nos Estados Unidos” (Jornal do Brasil de 14-5-1978). De lá para cá, a violência motorizada estirou seus tentáculos pelos quatro cantos do país. Desde o início dos anos 1980 ela vem matando entre 45.000 e 50.000 vítimas, a maioria pedestres, principalmente crianças e velhos pobres que andam a pé. Ainda hoje, o trânsito do Brasil figura entre os quatro mais mortíferos do mundo: 23,4 mortos por ano para cada 100.000 habitantes.

Ser contra as multas dá votos.  Em 1988, quando candidata à Prefeitura de São Paulo, interrogada, como os demais concorrentes, a respeito do que projetava para o trânsito, Luisa Erundina pronunciou-se contra as multas, com o primoroso argumento de que o importante “não é multar, mas educar o motorista”. Tinha obrigação de saber que em todos os países de trânsito civilizado as multas são pesadíssimas. Erundina preferiu lançar fórmulas “simpaticamente” eleitoreiras a assumir em relação à delinquência motorizada a severidade necessária para resguardar o interesse coletivo. Ideologicamente, nesta questão, optou pelo liberalismo selvagem, ponto de vista exatamente oposto ao da luta para civilizar o trânsito. Que Haddad, o primeiro a enfrentar energicamente a barbárie do trânsito tenha sido amplamente derrotado nas urnas, depõe a seu favor. Depõe contra os coxinhas e outros boçais.

A indigência intelectual e moral dos golpistas

Cesar Mangolin

Esclareço os termos antes de tudo.

Entendo o processo que levou à derrubada da presidenta eleita pelo voto direto como um GOLPE DE ESTADO. Portanto, chamo de golpistas tanto os que articularam diretamente o golpe, quanto os que o apoiaram e festejaram. Mas a estes últimos me refiro preferencialmente aqui.

A indigência refere-se a um estado miserável, vem da palavra latina que também quer dizer “carência”, no sentido de que faltam elementos básicos e fundamentais. Portanto, a indigência intelectual é um estado de miséria e carência absoluta de fundamentos teóricos e capacidade de análise. A indigência moral é marcada pela ausência de princípios, a miséria que se expressa pelo comportamento, o que minha mãe chamaria no popular de falta de vergonha na cara mesmo.

Pois bem. Esclareço brevemente as duas características nesse processo do golpe.

Os que apoiaram e festejaram o golpe são indigentes intelectuais porque é notória a incapacidade de estabelecer conexões com interesses diversos envolvidos no processo. Mas mais que compreender o que está por trás do golpe e o explica, essa gente não é capaz de compreender a gravidade do momento em que vivemos, a seriedade e as consequências mais ou menos duradouras do retrocesso que demos início, tanto na vida política do país, quanto nas condições de vida dos trabalhadores, o que envolve também o grosso dos setores médios batedores de panelas.

Mas não é por falta de capacidade de análise que festejam o golpe… É infantil e ingênua a versão corrente de que a suposta burrice seria a explicação para que tantos trabalhadores apoiassem  golpe… Que, no geral, são incapazes de fazer uma análise mais ampla, não há duvida. Mas isso também ocorre com boa parte dos que são contra o golpe. Quero dizer com isso que precisamos romper com a ideia de que é a falta de conhecimento a explicação para tudo… Por detrás dessa argumentação está sempre a ideia de que a ilustração por si só garantiria uma sociedade mais justa e lança preferencialmente aos que não tiveram acesso à escolarização formal a culpa de tudo. Não esqueçam que esse é um argumento amplamente utilizado pelos golpistas para atacar os trabalhadores mais empobrecidos e lhes responsabilizar por nossas misérias. Ora, que os iluministas tenham vivido desse tipo de ilusão e que muitos persistam nessa perspectiva, é fato. Principalmente aqueles envolvidos com processos educativos. Mas não é razoável: possuímos exemplos suficientes desde o século XVIII que nos permitem considerar esse tipo de explicação da realidade uma maneira de simplificar e, na verdade, de fugir da explicação e da tentativa de compreensão da realidade objetiva. Fora isso, é bom lembrar que boa parte dos golpistas, verdadeiros indigentes intelectuais e morais, são também formados nas universidades, são mestres, são doutores…

Enfim, afirmo que os que apoiam o golpe não sofrem apenas de uma dificuldade de compreensão da realidade: insisto que esses limites estão postos também para boa parte dos que lutam contra o golpe. O que chamo aqui de indigência intelectual dos golpistas está ligada e subordinada à sua indigência moral. Esse é o fator preponderante.

E compreendam que não estou falando de nada fora da política, no sentido mais amplo do termo. Não submeto a política à moral, mas o contrário: ainda que os golpistas compreendam a si mesmos apenas com indivíduos singulares e atomizados, como é próprio da ideologia do nosso tempo, esse efeito de indigência moral é antes de tudo coletivo e organizado por práticas políticas bem precisas.

Vou tentar fazer uma síntese breve disso: o golpista é indigente moral porque sabe (e já faz tempo) que o processo não tem nenhuma relação com a luta contra a corrupção. Ele saiu às ruas com a camisa da CBF, tirou fotos com a polícia sorridente e gritou “somos todos Cunha”!!!!  O golpista apoiou a perseguição a lideranças do PT porque eram do PT, porque odeiam qualquer coisa que cheire a trabalhador, ainda que eles mesmos sejam trabalhadores. Odeiam a melhoria das condições de vida dos mais pobres porque isso lhes ameaça os canais tradicionais de manutenção como setor médio; mas odeiam também porque perdem aquela parcela da população que pode lhes servir em troca de um prato de comida ou de qualquer punhado de moedas. Lembram do escândalo das madames quando direitos trabalhistas básicos passaram a vigorar para o trabalho  doméstico? Os golpistas são indigentes morais porque são mesquinhos, egoístas. Eles praticam e demandam violências das mais diversas. O pacote vem completo: o desprezo pelos mais vulneráveis socialmente é refletido pelo desprezo aos trabalhadores,   às causas das mulheres, pela homofobia, o racismo, os mínimos direitos de crianças e adolescentes etc.. Em poucas palavras: eles optam por ficar ao lado do que há de mais podre, daqueles que secularmente dilapidam as riquezas nacionais e esfolam os trabalhadores brasileiros, ficam ao lado da corrupção, da violência em todos os sentidos e SABEM MUITO BEM QUE FAZEM ISSO!!! 

E compreender isso, romper com a ideia de que o problema é apenas de “burrice” ou ignorância, auxiliará aos que combatem o golpe a conhecer melhor seus inimigos e melhor definir o campo da luta que segue.

Não há inocentes!

 

A Escola TEM partido: é um aparelho ideológico!

Cesar Mangolin

Penso que estão todos errados sobre o “Escola sem partido”: tanto os que o defendem, quanto os que tem participado da frente contrária. Os primeiros pelo equívoco mesmo da proposta, pela censura e pelos fins políticos e conservadores embutidos no discurso fascistoide do “sem partido”. Os segundos pela maneira como lutam contra o projeto: no geral,  saem em defesa da escola (e da educação formal) como se ali fosse o reino da liberdade e da razão, como bons iluministas; e em defesa dos professores de maneira geral, como se essa categoria fosse, em si, algo de avançado. Precisamos combater o projeto e aproveitar o momento para avançar na crítica à educação formal e expor suas contradições.

Ora, é claro que, taticamente, devemos defender o que temos aqui concretamente, já que a proposta que ganha corpo torna isso que já é ruim muito pior. Mas é preciso pensar a educação formal criticamente, pensar em seu papel reprodutor (e não revolucionário) e parar com essa besteira de acreditar que através do acesso à educação formal será possível transformar a realidade:  um século e meio da “universalização” da educação formal nos países do centro do sistema capitalista parece já ter nos dado provas suficientes de que não é através da escola que superaremos as contradições e as desigualdades geradas pelo capitalismo. Pelo contrário: a insistência iluminista e idealista de que a escola pode despertar a “consciência crítica” (seja lá o que isso queira dizer!) serve tanto à causa popular quanto a espera pelo reino de Deus prometida pela Igreja aos servos na Idade Média.

É curioso ver marxistas alimentando essa crença na consciência, seja a filosófica, seja a de classe, despertada pela escola… Marx jamais tratou do que se convencionou chamar de “consciência de classe” e basta dar uma boa olhada pela história para saber que revolução alguma (nem as burguesas, nem as proletárias) pode ser reduzida a simples “tomada de consciência” e a atos de vontade… Mas esse é um bom assunto para outro texto. Voltemos ao universo da escola…

Esse aparelho escolar é também palco da luta de classes e somente assim deve ser tomado. Mas é um palco amplamente favorável à ordem vigente, sem dúvida. As lutas de classes adentram o espaço escolar, como adentram todos os espaços da vida social na medida em que se acirram: é isso que temos vivido hoje. É a partir da visão de conjunto das lutas que travamos hoje que devemos organizar a resistência em espaços como a escola. Isso pode permitir a elaboração de uma tática mais de acordo com a realidade objetiva, fugindo assim da sacralização da escola e da canonização dos professores.

Em 2015 escrevi e publiquei aqui um pequeno texto do que ainda se chamava de “lei do assédio ideológico”, de um deputado tucano. Tal projeto se desdobrou numa porção de outras tolices e nas versões do que se convencionou chamar “Escola sem partido”, essa aberração mais tendenciosa e doutrinadora que qualquer professor que se pretenda doutrinador (e isso é sempre uma burrice!) em uma sala de aula.

Retomo argumentos daquele texto que, no calor das panelas batendo e da pequena burguesia saindo às ruas pedindo o golpe, teve uma repercussão bastante curiosa e à altura dessa gente: fui ofendido e ameaçado de todas as mais criativas maneiras! Um espetáculo de matar de rir e, ao mesmo tempo, assombrar qualquer um!

Em síntese,  esses projetos ameaçam com advertência, demissão e até cadeia aquele professor que ensine a partir de “doutrinas” e não de ciência (seja lá o que isso queira dizer!), ou ainda, o “professor doutrinador” seria aquele que não apresenta de maneira imparcial todas as possibilidades de explicação e todos as correntes de pensamento para que os estudantes pudessem livremente escolher como pensar.

Três observações sobre isso – o doutrinador; as correntes de pensamento; a imparcialidade:

1º –  é óbvio que chamam de “doutrinador” qualquer professor marxista, ou o que entendem por isso, afinal estudar Marx dá muito trabalho. Conheço muita gente que se apresenta como marxista e faz apenas um belo discurso liberal. Muito mais ainda gente que nunca leu uma página de Marx e fala com tom de entendedor que sua teoria está superada, ou que suas previsões não deram certo, como se Marx tivesse gasto tempo com previsões e fosse um vidente com bola de cristal e não um homem de ciência…

2º – com a experiência que já carrego no ensino superior, tenho certeza que é impossível para qualquer professor, em qualquer disciplina, passar de maneira adequada por uma corrente de pensamento sem vulgarizá-la, quanto mais percorrer todas elas… Todavia, ainda que isso fosse possível, o processo de construção de conhecimento não corresponde necessariamente ao ato de “passar” para estudantes todas ou algumas correntes de pensamento de um tema qualquer… Embora praticada largamente, a educação bancária (que “deposita” conhecimento pronto na cabeça de estudantes – como chamava Paulo  Freire) não é capaz de construir conhecimento algum, nem a praticada por professores revolucionários, nem a praticada por professores conservadores e por apologetas da ordem, que constituem largamente a maioria dessa infeliz categoria. No geral, aliás, os estudantes tampouco estão realmente interessados em construir conhecimento, mesmo na faculdade… Compelidos aos bancos do ensino superior pela necessidade do emprego e pelo aumento das exigências de certificação escolar por parte das empresas, os estudantes e professores portam-se, no geral, como pessoas que cumprem protocolos e esforçam-se em provas para garantir que sua permanência por ali seja a mínima necessária. Chamei isso de exclusão prorrogada (conceito emprestado de Pierre Bourdieu) e o fenômeno de “sobrecertificação” num artigo de 2010 (quem quiser dar uma olhada, segue o link do artigo:  https://cesarmangolin.files.wordpress.com/2010/02/mangolin-sobrecertificac3a7c3a3o-e-expansc3a3o-o-ensino-superior-brasileiro-e-a-exclusc3a3o-prorrogada-de-pierre-bourdieu.pdf ).

3º – a ilusão da imparcialidade pode levar a dois caminhos: o primeiro é o do dogmatismo próprio do positivismo, de que a ciência é verdadeira, neutra e imparcial; o segundo é o do relativismo teórico, próprio da moda “pós-moderna”. No primeiro caso o caminho é tratar a sociedade capitalista e o império da técnica como o último estágio do desenvolvimento das sociedades humanas, que basta apenas aprimorar e colocar em ordem para ser perfeito; no segundo caso, temos a instauração do irracionalismo, pura e simplesmente. Presente já na “filosofia espontânea” do senso comum, derivado do individualismo próprio da sociedade burguesa, tratar a verdade subjetivamente, havendo como critério único o que cada um quer “achar”, ou o “olhar” particular e individual, parece até avançado e modernoso para muita gente que tem preguiça de estudar. Nos dois casos temos instrumentos poderosos para auxiliar a  reprodução da ordem burguesa: o primeiro porque a afirma como única verdade e resultado de inexorável processo da evolução histórica; o segundo porque torna impossível pensar a sociedade existente como estrutura, porque nega o conhecimento objetivo e impede pensar em transformações concretas de conjunto. Temos aqui apenas um “museu de novidades” filosóficas e a militância em favor da ordem burguesa travestida de “imparcialidade”.

É um conjunto de besteiras esse projeto reacionário, mas não é uma novidade, de qualquer maneira: apenas acentua características do espaço escolar, pegando carona na onda conservadora que tem permitido com que as pessoas coloquem pra fora seus preconceitos e suas mesquinharias de maneira cada vez mais agressiva. Não surpreende, mas assusta, sem dúvida, que apareça algo desse tipo. Sou contra, evidentemente, uma loucura dessas, porque sei a quais interesses serve e quais seriam os penalizados.

Mas seria até curioso, se levássemos isso a sério, imaginar que estariam proibidos os que, de fato, doutrinam e vendem ilusões nas salas de aula: a educação formal quase inteira estaria condenada!!!!  Tenho certeza absoluta de que os marxistas não formam a maioria dos professores. Antes fosse. Nosso quadro docente é formado por gente que, por sua vez, foi formada por professores que propagam ilusões sobre a sociedade burguesa. Ilusões mesmo, porque carecem de qualquer fundamento científico, ou do seu princípio básico, o postulado da objetividade.

Por exemplo: qualquer um, de esquerda ou de direita, que tenha gasto o tempo necessário para estudar (e não é pouco tempo…), sabe que Marx foi o pensador capaz de, a partir do postulado da objetividade, portanto cientificamente, analisar e descrever a estrutura e a dinâmica contraditória do capitalismo, fazendo ao mesmo tempo a crítica das teorias econômicas que partiam de pressupostos falsos e ideológicos, como  o antropologismo idealista e o indivíduo. Não é por acaso que O Capital tem como sub título a “crítica da economia política”: ele não tem como objetivo construir outra versão da economia política, mas a de demonstrar suas falácias, seus equívocos e sua distância do que se pode considerar ciência…Pois bem: partindo desse exemplo simples e comparativo da obra de Marx e da chamada economia clássica, poderíamos imaginar, levando uma lei dessas a sério, que a maior parte dos professores estaria ferrada, porque a maioria dos professores vende ilusões nas salas de aula. Defendem que a sociedade na qual vivemos é um conjunto de relações mercantis individuais vantajosas reciprocamente; afirmam que vivemos numa sociedade que permite a mobilidade social e possibilita a qualquer um ser o que quiser, dependendo apenas de sua vontade e de sua dedicação; defendem a meritocracia como princípio organizador das posições de indivíduos que vivem, objetivamente, em condições essencialmente desiguais; culpabilizam as vítimas excluídas do acesso aos gêneros necessários para manter a vida; defendem um sistema que mata centenas de milhares todos os dias pela fome, pela violência urbana, pela guerra; fazem com que todos acreditem que tomar a vida como sendo apenas o trabalho é o caminho para a emancipação; convencem que a vida bovina e honesta é o ideal; fazem com que os trabalhadores se tornem egoístas e vejam seus pares como concorrentes, não como companheiros; fazem com que lutem por sua própria escravidão como se lutassem pela liberdade; com que se rastejem sonhando com as alturas enquanto comem a poeira do chão…

É isso que fazem os professores, como regra. A educação formal sempre foi um poderoso instrumento de reprodução da ordem, não de sua transformação. Vai continuar assim, para a frustração de educadores bem intencionados que alimentam ilusões com sua ação. Os professores são os agentes diretos da exclusão conformada, não os que podem levar à libertação.

O “Escola sem partido” não tem como objetivo bloquear a “doutrinação” nas escolas, mas exatamente o contrário: eliminar os pequenos focos de lucidez criativa e progressista existentes ali. Os professores são, em sua maioria, doutrinadores e vendedores de ilusões acerca da ordem capitalista, formadores de carneiros, criadores de fantasias, ratificadores das nossas desgraças…

Devemos lutar contra a acentuação da inculcação ideológica nas escolas e em todos os aparelhos ideológicos, atuar em suas contradições, mas sem perder de vista a realidade objetiva desses aparelhos, sem perder de vista que objetivo é ir para além deles.

É correto a princesa ser beijada enquanto dorme?

Cesar Mangolin

Seis momentos recentes.

Primeiro, dia desses, uma notícia feliz: 16 crianças de uma sala de quarta série votaram e responderam “não” à pergunta que dá título ao texto: 14 votos não e apenas 2 sim. Estava em questão a historinha da “bela adormecida” que é acordada por um beijo do “príncipe encantado”. A conclusão das crianças é bem interessante: se ela estava adormecida, o beijo não foi consentido. Seria razoável beijar o outro, ou tocar o outro, sem seu consentimento? Para essas crianças que têm em torno de dez anos de idade, não. Mas não é ainda de espantar que festejemos uma constatação tão óbvia?

Segundo momento: estudantes do curso de Direito debatem a pena de morte. Um grupo a defende e usa a violência contra a mulher como exemplo. Segundo o grupo, os estupros, espancamentos, assassinatos seriam praticados por psicopatas que, por serem doentes mentais irrecuperáveis e cometerem esse tipo de crime, deveriam morrer. Mal desconfiavam os nossos futuros advogados, promotores e juízes que são irrisórios os números de crimes cometidos pelos que são afetados por doenças mentais. Esse raciocínio, de fazer sorrir qualquer nazista de plantão, esconde na verdade que nossa doença se chama machismo e que são homens muito normais e sem doença alguma os que cometem 99% dos crimes de violência contra as mulheres.

Terceiro momento: um decadente “artista”, que tem no currículo “projetos” bem sucedidos de programas e shows nos quais as mulheres são apresentadas como animais em um zoológico, que atuou em filmes pornográficos (e não parece ser necessário insistir no quão machista é a indústria da pornografia!), que – o mais grave – é um estuprador confesso e narrou essa violência num programa de TV sob aplausos da plateia, é recebido no Ministério da Educação pra defender o projeto Escola sem Partido, que é, dentre outras barbaridades, contra a educação e orientação sexual nas escolas.

Quarto momento: a primeira presidente do Brasil enfrenta um golpe e sofre das mais ignominiosas ofensas e mentiras… Ela, que lutou contra a ditadura militar e foi presa e torturada pelo Estado brasileiro, apresenta uma força descomunal diante desse processo. Mas as críticas não são apenas políticas: ela é chamada de vagabunda, de puta, fazem insinuações em jornais e revistas sobre suas preferências sexuais ao mesmo tempo em que se faz a defesa da mulher objeto de decoração, que deve ser “bela, recatada e do lar.”

Quinto momento: um deputado federal, ao votar em favor do processo de derrubada da presidente eleita,  recupera a memória de um chefe de torturadores com se fosse um herói. Nas sessões de tortura, aliás, não era raro ocorrer o estupro coletivo das mulheres sequestradas. Invoca também a memória de Caxias e seu exército, aquele mesmo exército que estuprou e executou, como “política de guerra”, as mulheres paraguaias naquela vergonhosa covardia da qual os brasileiros participaram. O mesmo deputado que defende que os militantes de movimentos populares devem ser assassinados, que gays devem morrer, que educou bem seus filhos e, portanto, “eles não correm risco de se casarem com mulheres negras”… O mesmo deputado que defende que mulheres devem mesmo ganhar menos que os homens porque elas engravidam. O mesmo que disse a uma deputada, em rede nacional, que não a estuprava porque ela era “feia e não valia a pena”…  O mesmo deputado que tem sido celebrado como um exemplo a ser seguido por um número considerável de homens e mulheres…

Sexto momento: mais de trinta homens estupram uma mulher no Rio de Janeiro… Eles filmam e divulgam o ato. Eles festejam como um troféu conquistado a estupidez praticada ali. Ninguém reagiu. Todos devem ser, independentemente da idade, trabalhadores, estudantes, filhos, pais, irmãos… Gente normal, “gente de bem”, que culturalmente não vê a barbárie cometida como uma violência injustificável… E isso choca mais: tenham certeza de que eles sabem que é violência, que eles sabem que não está correto o que fizeram e sabem muito bem o que fizeram. Eles apenas atribuirão, sem dúvida alguma, à mulher violentada a culpa pela violência que sofreu, assim como já há uma porção de gente em redes sociais falando que a moça tinha problemas com a família, ou com drogas e coisas assim. Liberar o macho da responsabilidade por seus “instintos” e culpabilizar a mulher por sua “sedução” é argumento antigo e ainda amplamente utilizado nas violências domésticas, consanguíneas, de padrastos sobre enteadas, das mulheres estupradas nas ruas porque era “tarde e a rua estava deserta e ela  não deveria estar ali”, ou porque ela estava vestida “como uma puta”, ou porque “facilitou”, “deu mole” etc..

Podemos multiplicar  aos milhares em apenas um ano esses exemplos somente aqui no Brasil. Mas é preciso dar atenção ao fato de que crimes como o do Rio de Janeiro ocorrido nesta semana são muito mais comuns do que pensamos, porque  o problema não é, evidentemente, a quantidade dos que participam do crime, mas o crime em si. Nossa cultura machista torna uma violência dessa magnitude contra as mulheres algo comum, sem importância, como se fosse um mal com o qual se deve conviver resignadamente.

Jogamos pra debaixo do tapete um problema social de grande gravidade: o que conceituamos como “homem” em nossa cultura corresponde diretamente ao machismo  e, portanto, somos todos formados como potenciais estupradores. Isso entristece e assusta. Ser “homem” na nossa cultura é, sem dúvida, um motivo de vergonha.

 

 

O governo caiu por seus méritos: compreender o golpe e organizar a luta.

Cesar Mangolin

Uso este texto para poder melhor expressar uma posição inicial que me parece dever ser a dos que pretendem dar prosseguimento ao debate e à organização para a luta nessa nova conjuntura. É um texto sucinto, escrito para dialogar com militantes da esquerda, não com “coxinhas” histéricos e nem com o esquerdismo infantil, a irrelevante esquerdinha do “nem, nem”, do “é tudo igual” e do “voto nulo”. Penso que os militantes progressistas, democratas e de esquerda, enfim, todos que compreendem a derrubada da presidente Dilma como um golpe e um atentado perigoso à nossa frágil democracia devem pautar suas análises e a construção da tática para o momento a partir de uma constatação importante e fundamental que adianto aqui: o governo foi derrubado por seus méritos.

É importante pensar e expressar essa obviedade porque tivemos três grandes posicionamentos diante do evento. 1) o governo caiu porque é corrupto; 2) o governo caiu porque fez alianças com a direita; 3)  Michel Temer foi o vice-presidente eleito na chapa do PT, portanto, a “culpa” é do PT mesmo.

A primeira posição é frouxa, como bem sabemos, e não merece que nos estendamos nela. Não porque corrupção não seja um problema! É um grave problema, sem dúvida, mas foi apenas o cavalo de batalha e jamais a questão central em todo o processo. É necessário para qualquer um ser muito estúpido ou muito safado para continuar a afirmar algo assim, transcorrido o processo. Não há, de maneira alguma, mais espaço para esse tipo de argumentação.

As posições dois e três estão articuladas e são, ambas, equivocadas. A conjuntura de crise das políticas neoliberais do final da década de 1990 e começo dos 2000 permitiu uma série de governos progressistas e de esquerda e centro-esquerda por toda a América Latina e também na Europa. Mas essa possibilidade aberta pela crise generalizada deveria ser contingenciada pelas conjunturas internas de cada país, ou seja,  as possibilidades dessas experiências serem mais ou menos avançadas dependeu, como sempre, do nível de acirramento das lutas de classe dentro de cada país. Isso explica a capacidade de tomar medidas mais ou menos progressistas e até mesmo o caminho tomado para a chegada ao governo e o espaço real de manobra e movimento: as experiências mais amparadas em movimentos populares mobilizados e com histórico recente de grandes lutas nacionais pode explicar, por exemplo, a maior radicalidade das experiências da Bolívia, do Equador e da Venezuela. Assim como um menor acirramento interno das lutas de classe podem explicar a necessidade de dar largo peso ao processo institucional e buscar alianças para além do campo popular e de esquerda para viabilizar vitórias eleitorais. Isso não ocorreu somente no Brasil, mas também na Argentina, no Chile, no Paraguai, no Uruguai, na Nicarágua etc..Após um breve ciclo de crescimento econômico, mas principalmente, de desenvolvimento social, todas essas experiências (as mais e as menos avançadas) passaram a sofrer revezes com a persistência da crise internacional do sistema capitalista. Nuns casos, eleitorais (Chile – que retornou depois-, Argentina, vários países da Europa, por exemplo…), noutros, diante da impossibilidade ou incapacidade de vitória eleitoral dos setores reacionários, o caminho foi o golpe, como ocorreu no Paraguai, como é tentado na Venezuela e, agora, no Brasil.

É óbvio que todos lembram da “Carta aos Brasileiros” de Lula e do PT na campanha de 2002. Lembram também que foi uma ampla e heterogênea frente de partidos e movimentos populares a responsável por sua eleição, cuja vice-presidência era ocupada por um empresário do extinto Partido Liberal… A composição do governo refletiu essa frente, sem dúvida. Mas provavelmente não haveria a vitória eleitoral não fosse essa montagem, assim como não ocorreria nas eleições sucessivas. Dizer agora que a sequência de governos (os dois de Lula, o de Dilma) poderia ter criado bases sociais para saídas mais avançadas denota apenas uma visão paternalista e ilusória com relação ao Estado burguês (a mesma que foi capaz de cooptar movimentos e lideranças populares) e a incapacidade que partidos e movimentos mais avançados tiveram de inserção e organização, isso sim, fundamental para que essas saídas ocorressem. É da capacidade de luta, de mobilização e de organização dos trabalhadores que depende qualquer saída mais avançada e até revolucionária, não da máquina do Estado…

Mas essas ilusões com o Estado burguês não significam, de outro lado, que governos com o perfil do ciclo petista não eram fundamentais! Os trabalhadores conquistaram durante esses governos condições e “direitos” que secularmente lhes foram negados. Ainda que imbricados nas contradições e necessidades de ceder ao grande capital e, ao mesmo tempo, realizar avanços sociais, ninguém pode negar que as condições de vida dos trabalhadores por todo o país foram elevadas positivamente e que jamais se fez tanto pela redução ou eliminação da miséria e das desigualdades gritantes.

Michel Temer, político tradicional do “centro” pantanoso que é o PMDB, que tende para qualquer lado onde possa ocupar mais espaço, era parte de um governo com esse perfil: eleito por uma frente heterogênea de partidos, mas com compromissos sociais claros, com compromissos com determinadas frações do capital também claros. Vejam: determinadas frações do capital que eram atendidas prioritariamente nos seus interesses porque faziam parte do projeto desenvolvimentista que estava na base desse governo e era seu programa. As demais frações do grande capital participavam, sem dúvida, secundariamente. É necessário compreender as contradições internas da própria burguesia, porque é uma parte dela e não seu conjunto quem está por detrás do golpe. Não esqueçam que uma parcela da burguesia está, inclusive, na cadeia: as grandes empresas responsáveis pela construção pesada, pela construção civil, pela indústria naval, de segurança territorial etc.. Aliás, exatamente aquela fração privilegiada pelo programa desse ciclo de governos. Enfim, isso tudo pra dizer que Michel Temer não foi eleito para fazer parte de um golpe de Estado: foi eleito, dentro das regras democráticas e da ordem constitucional para ser o vice-presidente de um governo que tinha programa já aplicado e em andamento. Não é possível ver gente de esquerda fazendo esse discurso agora de que a “culpa” é do PT mesmo por isso… O golpe ocorreria, com ele, sem ele… Personalizar o golpe, assim como o próprio PT estava fazendo, dizendo que é uma armação de Temer e uma vingança de Eduardo Cunha é reduzir o problema a uma intriga palaciana e perder sua dimensão política e de classe.

Eu defendi desde as manifestações de junho de 2013 (que foram tomadas pela pequena burguesia por todo o país) que havia uma articulação diferente da direita em andamento, que havia a ameaça de golpe. Com o início do processo eleitoral em 2014, ficou bastante claro que não teríamos ali uma eleição qualquer: tínhamos dois projetos de dentro da ordem burguesa, sem dúvida, mas dois projetos em disputa, sendo que o que vinha da direita ganhava força, o que ficou expresso na campanha (mais violenta que de costume) e na votação final. Era necessário a partir dali defender esse governo, não por sermos “governistas” acríticos, mas porque o que viria em seu lugar significaria um forte retrocesso.  Enfim, não é necessário e estenderia demais esse texto mencionar todos os grandes lances do processo, mas o fato é que tivemos golpe que precisa ser compreendido para além dessas três posições superficiais mencionadas acima.

E repito, para poder concluir, que esse governo foi derrubado por seus méritos, não por outro motivo. É necessário ir para além das facilidades da análise para compreender sua real dimensão e sentido. É ser rasteiro e leviano afirmar que era um serviçal governo de direita que perdeu a importância e foi descartado (como tem feito a “esquerdinha” burra). Foi um golpe dado contra a nossa frágil democracia, que favorece a organização e ação popular, um golpe dado contra as conquistas sociais, um golpe dado contra os avanços da luta contra o racismo, um golpe dado contra os avanços do movimento feminista, na luta contra a homofobia. Fundamentalmente, um golpe violento contra os cantões do Brasil, um golpe que vai interromper mudanças fundamentais que trouxeram condições mínimas de dignidade para uma parcela considerável da população brasileira. Um golpe que pretende recriar no Brasil as condições para a acentuação da exploração dos trabalhadores e das nossas riquezas  pelo grande capital estrangeiro.

Claro que ocorreram vacilos, erros etc.. Óbvio que um pouco do conjunto daqueles três argumentos precisa ser tomado para entender essa derrota histórica. Mas atribuir a “culpa” do golpe a quem sofreu o golpe é o mesmo que atribuir à vítima de violência a responsabilidade pela violência sofrida, como fazemos com as mulheres vítimas de violência sexual, por exemplo, quando afirmamos que foram atacadas porque estavam vestidas de tal maneira, porque estavam na rua tarde da noite e coisas do tipo.

Tampouco me parece que nosso momento é o de encontrar culpados. Ao contrário, precisamos 1) compreender as razões desse golpe, seu caráter de classe e seu programa (isso está delineado acima…); 2)  saber como estão (concreta e objetivamente) as forças que se movimentam contra o golpe; 3) articular por todos os canais a reação organizada e a luta de resistência e ofensiva para derrotar o golpe e retornarmos numa posição qualitativamente mais avançada.

Penso que esse pontos (expostos de maneira apenas geral aqui), podem permitir um bom debate tendo em vista a ação.