Militares antinacionais? Pesquisador analisa contradição que ronda governo Bolsonaro (Entrevista do BRASIL DE FATO com JOÃO QUARTIM DE MORAES)

CRÉDITOS: JORNAL BRASIL DE FATO / JÚLIA DOLCE

LINK PARA A PUBLICAÇÃO ORIGINAL: https://www.brasildefato.com.br/2018/11/08/militares-antinacionais-pesquisador-analisa-contradicao-que-ronda-governo-bolsonaro/index.html?fbclid=IwAR36kmLjt5BCU4_kb2Si9p9lJeRduAfRmDtLV0fZXzdj_gVFz9YiAEbgi4E

Para João Quartim de Moraes, fenômeno é característico das Forças Armadas brasileiras, historicamente ligadas aos EUA

Júlia Dolce

Brasil de Fato | São Paulo (SP),

Jair Bolsonaro presta continência à bandeira dos Estados Unidos em Miami, nos Estados Unidos - Créditos: Reprodução
Jair Bolsonaro presta continência à bandeira dos Estados Unidos em Miami, nos Estados Unidos / Reprodução

O nacionalismo do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) tem sido colocado em xeque por opositores e intelectuais, que questionam o caráter entreguista das medidas já anunciadas pelo capitão reformado do Exército.

As Forças Armadas, outrora associadas à defesa do interesse nacional, reaparecem no cenário político brasileiro com um discurso patriótico esvaziado, que contempla até propostas radicais de privatização.

Nem sempre foi assim. Na década de 1950, os militares participaram da fundação da Petrobrás e reivindicaram seu caráter público e estatal. A narrativa privatista e anticomunista da ditadura militar, iniciada em 1964, logo foi deixada de lado em nome da valorização das empresas nacionais. O próprio Bolsonaro defendia, 13 anos atrás, que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) fosse fuzilado por defender a privatização da Vale do Rio Doce.

Para o cientista político e professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) João Quartim de Moraes, essa contradição não é uma característica apenas do governo eleito, mas das próprias Forças Armadas. Moraes é pesquisador de filosofia antiga, teoria política e instituições brasileiras, e já publicou diversos livros sobre o militarismo no Brasil e América Latina, como “A Tutela Militar”, de 1987, “A Esquerda Militar no Brasil”, de 1991, e “Liberalismo e Ditadura no Cone Sul”, de 2001.

Eu concordo que há uma contradição objetiva, ela é o seguinte: as Forças Armadas como instituição estão identificadas ao Estado brasileiro. Se ele fica fraquinho, elas também ficam. De outro lado, ideologicamente, elas estão identificadas com o que chamavam de Colosso do Norte, os Estados Unidos – hoje, Trump. É uma contradição deles, que nós temos que levar em conta”, afirmou.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato: O senhor enxerga uma contradição no caráter militar antinacionalista do governo de Jair Bolsonaro?

João Quartim de Moraes: A gente determina uma contradição identificando bem quais são os polos dela. No golpe de 1964, no primeiro governo da ditadura, do General Castelo Branco, eles eram privatistas, liberais. Quem mandava na economia era Roberto Campos, um privitatista extremado, liberalóide fanático. Esse tal Paulo Guedes aí, o já designado “superministro” das questões econômicas, é um continuador, talvez menos preparado intelectualmente – porque Roberto Campos era um homem de certa cultura –, mas é a retomada desse liberalismo extremado, socialmente indiferente e cruel. Isso tivemos na primeira fase da ditadura. Houve uma inflexão lenta para uma política de fortalecimento do Estado nacional, que atinge o auge no governo de Ernesto Geisel, uma tentativa de desenvolvimento econômico planejado e centrado no Brasil com um esforço muito grande, que acabou não dando tão certo porque foi atropelado pela crise internacional, do petróleo, governando em uma situação internacional muito adversa. Nesse sentido, pode ser comparado ao governo de Dilma Rousseff a partir de 2012.

Nisso, ele não realizou parte considerável do seu projeto de industrialização acelerada, de desenvolvimento possante das vias de transporte. Ele investiu muito em ferrovia, mas o êxito foi parcial. O interessante é que a contradição que houve foi entre a alta burguesia paulista, banqueiros e industriais, FIES, Febraban, e o Geisel. Porque fizeram uma campanha anti-estatizante – o que dominou a cena política brasileira entre 1977 e 1978.

Em geral, espera-se que os governos militares sejam mais nacionalistas. Isso é parcialmente verdadeiro, mas geralmente esquecemos porque temos a bronca da repressão e do DOI-CODI. Mas, é preciso ver com mais amplitude. Os militares não são todos monolíticos. Tem gente com ideias diferentes lá, de autonomia econômica nacional.

Agora, no governo Bolsonaro, como se configura? Não sei bem. O próprio Bolsonaro tem aquele lado falastrão, vai lançado as frases, muito para apavorar a molecada, mas atrás disso ele não é bobo. Ele fala uma besteira, mas quando se dá conta, ele recua. Veja o caso da China: explicaram para ele que é o maior importador do Brasil, que se a China romper relações com o Brasil é o maior prejuízo. Aí ele parou e considerou isso. Nós tememos, estamos assustados com o que ele pode fazer, mas bobo ele não é.

Mas, historicamente, os militares costumam ter o nacionalismo como valor inerente?

É complexo porque, do mesmo modo que havia muitos militares nos anos 1950, que batalharam corajosamente, até próximos do partido comunista então na ilegalidade, e aos intelectuais nacionalistas, pela Petrobrás, como também lutaram pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Cnpq), havia também a direita militar que recebia ordens de Washington direta e indiretamente. Esses eram a favor do alinhamento incondicional.

Bolsonaro bateu continência para a bandeira estadunidense, o que é lastimável, mas é difícil identificar essa contradição. Eu concordo que há uma contradição objetiva, e ela é o seguinte: as Forças Armadas como instituição estão identificadas ao Estado brasileiro; se ele fica fraquinho, elas também ficam. De outro lado, ideologicamente, estão identificadas com o que chamavam de Colosso do Norte, os Estados Unidos. É uma contradição deles, que nós temos que levar em conta: uma contradição no interior das Forças Armadas brasileiras.

Isso está relacionado à influência dos EUA no golpe de 1964?

Isso não começou em 1964. Do mesmo modo que a vitória do candidato de linguajar e, quem sabe, ideologia fascistóide, não começou com a campanha eleitoral de 2018. Eu diria que começou em junho de 2013, quando a direita começou a tomar conta da rua, ultrapassando e manobrando aqueles protestos até progressistas da molecada do passe livre. Do mesmo modo, em 1964, começou muito antes. Começou com uma vitória da esquerda, a vitoriosa resistência de 1961 à primeira tentativa para impedir que João Goulart virasse presidente, com a renúncia de Jânio Quadros.

Eles não queriam Jango, então houve uma mobilização, da qual despontou a figura desse grande dirigente de esquerda, Leonel Brizola, e coordenou a resistência ao golpe. Mas eles perderam ali e vieram para o toco depois. Eu fiz um livro há 20 anos, “A Esquerda Militar do Brasil”, em que narro isso até a revolução desde 1930. A alta burguesia paulista articulou-se fortemente em contato com os militares até 1961.

Tanques estadunidenses foram doados ao Exército brasileiro, em outubro, e as Forças Armadas estadunidenses já vieram treinar na Amazônia neste ano. O senhor acredita que essas ações simbolizam uma perda de soberania, talvez uma entrada do Brasil em uma guerra contra a Venezuela, à sombra dos EUA?

Ceder base para os Estados Unidos aqui no Brasil é algo que põe em questão a soberania. Trump foi derrotado parcialmente agora nas eleições estadunidenses, os democratas são maioria na Câmara – não sei se aceitariam passivamente uma invasão na Venezuela.

Agora, se o Brasil aceitar o miserável papel de tropa auxiliar dos EUA em uma invasão dos EUA, aí seria um rebaixamento da nossa soberania: voltaremos a ser um satélite. Mas isso não está configurado ainda. O que está configurado na Venezuela é que os imigrantes estão vindo para o Brasil, porque a situação econômica lá está tremendamente difícil. Então, podem usar o argumento de que reforçar a segurança na fronteira é impedir que isso vire um caos. Mas acho que o Brasil, por enquanto, ainda não tem um papel fundamental para desestabilizar a Venezuela. Isso vem do bloqueio estadunidense e de uma hiperinflação que eles não têm conseguido controlar.

As pessoas estão muito preocupadas e assustadas com o que esse governo representa. O senhor acredita na possibilidade de um golpe militar?

Os militares não precisam disso. Se ganharam uma eleição, por que precisam dar um golpe? Isso poderá se configurar mais a frente, daqui a vários meses, no mínimo, se, o que é possível, logo de início as cabeçadas de Bolsonaro criarem uma situação econômica insustentável. Não creio que isso ocorrerá logo no início. Ou talvez por excesso de violência, na linha de frente dele está o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), depois o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e o próprio Partido dos Trabalhadores (PT).

Agora, golpe militar, o chamado “auto-golpe”, com ele, com o General Mourão, que me parece instável psicologicamente se não for fingimento, eu não sei. Mas saberemos logo, porque ele terá que definir se será uma reedição de Jânio Quadros, que aguentou seis meses.

Temos que usar com certa prudência as comparações históricas e não ficar antecipando ou agravando a situação já difícil e preocupante, porque o alarmismo é ruim. Não tenho nenhuma dúvida que o amor à democracia nas cúpulas militares é pequeno, e que diante de uma situação de perigo comunista, ou de crise, algo que eles sempre inventam, ou uma situação real e objetiva de descalabro econômico, paralisia da economia ou revolta social intensa, aí sim o espectro de um auto-golpe com Bolsonaro, com a cúpula militar empurrando Bolsonaro, se ele se demonstrar demasiado desequilibrado, é possível. Mas é mais complexo, internacionalmente. já imaginou uma ditadura militar no Brasil? O único país… eles têm uma noção.

Mas, na sua opinião, podemos virar uma sociedade bem mais militarizada?

O pior que está acontecendo agora é que quem está empurrando a militarização da sociedade não são os militares propriamente. São os talibãs evangélicos, que inutilmente a Dilma Rousseff tentou aplacar, fazendo média, indo vistar o Templo de Salomão.

O que a esquerda tem de fazer é travar um combate ideológico pela cultura e pelas luzes. Vamos diagnosticar direito a coisa. O problema principal e ideológico do Brasil, por hora, não são os militares, porque Bolsonaro é um fanático, e esse é o principal entorno ideológico que o impulsionou. O principal problema de retrocesso cultural são os extremistas evangélicos, e é nisso que temos que prestar atenção, travando uma corajosa luta, como vem sendo travado nas escolas e universidades públicas, contra essa aberração que é o “Escola Sem Partido”.

Artigo sobre o “Materialismo do encontro”, de Louis Althusser.

Postei na página deste blog “Textos Mangolin” e envio por aqui o link para os interessados de um artigo meu que foi publicado no número 46 da Revista Crítica Marxista, refletindo sobre o chamado “materialismo do encontro”, de Louis Althusser.

Abaixo segue o link e a introdução do artigo para que saibam do que o texto trata e como um convite à leitura e à crítica.

Link do blog:

https://cesarmangolin.files.wordpress.com/2018/11/mangolin-cesar-althusser-e-o-materialismo-do-encontro-continuidade-complementaridade-ou-ruptura.pdf

Link da Revista Crítica Marxista:

https://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/arquivos_biblioteca/artigo2018_11_04_15_06_44.pdf

Introdução

Louis Althusser escreveu alguns textos na década de 1980 nos quais apresenta e defende uma corrente que ele mesmo chama de materialismo aleatório ou materialismo do encontro. Podemos encontrar três posições sobre a relação entre a obra desta última fase (a da década de 1980) e a obra anterior (os escritos das décadas de 1960 e 1970): a primeira é a compreensão de que ambas as fases se complementam; a segunda é aquela que percebe apenas uma continuidade, dado que a tese da última fase, segundo a qual a história é sinônimo de contingência, apareceria em toda sua obra; por fim, a terceira posição compreende que há uma ruptura entre os dois momentos, não sendo possível pensá-lo como continuidade ou complementaridade, visto que há referenciais teóricos e problemáticas distintas e, portanto, teses diferentes.

Esta última compreensão é a que pretendemos defender em nosso artigo.

Para tanto, dividimos o texto em três partes: na primeira e segunda tomaremos o exemplo de dois autores cujos argumentos permitem defender, respectivamente, a perspectiva da continuidade e da complementaridade, para, na terceira parte, melhor situar nossa posição com relação à contribuição do filósofo francês e argumentar em favor da ruptura entre os dois momentos.

 

Alguém foi enganado?

Cesar Mangolin

Tenho visto muita gente defender que não devemos criticar e nem atribuir a responsabilidade da eleição do Bolsonazi aos que votaram nele. No geral, a ideia é que seus eleitores devem ser “acolhidos”, como se fossem grupos de inocentes enganados e a responsabilidade deve ser dividida entre os partícipes do golpe de 2013-16 (as interferências e interesses externos, os partidos – PSDB em particular – derrotados sucessivamente nas eleições, os nossos “ladrões de galinha” da política institucional e frações da burguesia preteridas – mas jamais deixadas de lado – com o amparo precioso dos seus cães de guarda da pequena burguesia, alimentados pelos meios de comunicação de massa e pela partidarização do judiciário).

Eu discordo dessa avaliação sobre os eleitores do novo presidente, mas entendo que os que a defendem não procuram uma facilitação: partem da constatação de que uma considerável parcela de eleitores que votou em Lula e em Dilma pode ter votado no fascismo agora. Digo “pode” porque não tenho dados objetivos sobre o tema e nem saberia como tornar isso possível: o número de abstenções, votos nulos e brancos é grande. Mas, sem dúvida, isso ocorreu. Mas discordo, primeiro, por uma razão óbvia: a eleição do novo presidente não foi uma proclamação divina anunciada pelo anjo Gabriel, informando a todos que nossa história estava a dar vida aos ovos do fascismo, chocados ao longo desses anos. O resultado da eleição foi anunciado pelo TSE, depois de apurados em favor do infeliz mais de 57 milhões de votos. Enfim, o dado óbvio é que esse povo saiu de suas casas e foi até a urna votar, livremente. Segundo, sem deixar de lado o consórcio golpista mencionado acima que, de fato, cumpriu um papel fundamental, onde estaria o engodo que traiçoeiramente convenceu esses milhões de eleitores?

Penso que podemos falar de um engano quando fazemos algo com um objetivo e, depois, vemos que fomos iludidos, ou que as promessas feitas não foram cumpridas, ou que as cartas do jogo não estavam na mesa claramente. Mas não foi também esse o caso, ainda que as promessas feitas possam frustrar uma porção dos eleitores, afinal não sabemos ainda como esse governo caminhará.

Repetido como uma ladainha, o discurso moralista que justificou a opção dos eleitores possui como pontos chave a defesa da “família tradicional”, as referências ao cristianismo, o combate à corrupção e à criminalidade, o patriotismo e erigiu um grande inimigo: o PT e uma dada concepção pejorativa de “esquerda” e outros grupos específicos que teriam “destruído o Brasil”, tratados homogeneamente, ou seja, como se fossem todos a mesma coisa e uma ameaça a ser destruída. A ideia de que a candidatura do nosso tosco fascistoide representava a “mudança” foi calcada nessas bases.

Mas é necessário fazermos a devida separação entre o discurso – entre o que afirmam – e as intenções e objetivos subjacentes à forma do discurso, ou seja, o que de fato explica o evento desse apoio massivo.

Penso que não é preciso ser cientista político para afirmar que todos sabiam que as bases desse discurso são falsas. Em outras palavras: esse discurso apenas escondia velhos preconceitos e velhas disposições de classe da formação social brasileira, que voltam à tona sempre que temos alguns avanços e em momentos de crise (na nossa conjuntura, uma crise econômica, mas fundamentalmente uma crise política e institucional, forjada para impedir novas e sucessivas derrotas). Que temas sensíveis (como o da segurança pública) expandam para além das camadas mais abastadas e da pequena burguesia o apoio à guinada a direita, não há dúvida, somando a isso certa disposição à subserviência e a um discurso que vai contra sua própria condição, que pode ser observada em alguns espaços. Mas, ainda assim, não havia ninguém enganado aí.

Que podemos até operar com a ideia de que isso não aparecia de maneira racionalizada ou refletida para toda a massa de eleitores, não tenho dúvida. Mas como alegar que qualquer um deles não sabia que fazia apenas um discurso parcial, ou fazia “vista grossa”, estando todas as peças expostas amplamente? Como não reconhecer que a defesa violenta e visceral do candidato da suposta “mudança” escondia inconfessáveis (mas claros) e questionáveis valores?

Exemplos da incoerência entre os elementos desse discurso (que mencionei mais acima) e as disposições reais e objetivas não faltam. Estiveram e estão muito claros e amplamente divulgados:

1) o moralismo, o cristianismo e a família tradicional: são muitos os vídeos em que o candidato aparece dizendo que utilizava apartamento funcional para “comer gente”; os eleitores da “moral” comemoraram meses antes a injusta prisão de Lula bebendo cerveja paga por um cafetão e em frente a um conhecido puteiro paulistano de elite; Alexandre Frota, um ator de filmes pornográficos e que confessou e relatou em cadeia nacional um estupro esteve por ali o tempo todo e foi eleito deputado federal; pastores investigados por corrupção e até por estupro “oraram” pelo candidato; o candidato ganhou fama por um discurso rasteiro e cheio de violência; há vídeos diversos como o “não te estupro porque não merece”, “vamos fuzilar a petralhada”, “vamos banir e prender os vermelhos”. Fora as manifestações explícitas de racismo, homofobia e machismo em vídeos incontáveis do próprio candidato, dos seus parentes e dos seus seguidores. Ora, como o discurso moralista e supostamente cristão pode ter servido de base com todas essas evidências?

2) o combate à corrupção e o problema da segurança: é de fazer rir quando vem de alguém que ficou por mais de 20 anos no partido de Paulo Maluf e quando são observados os que o cercam e apoiam. Alguns serão ministros agora. Lorenzoni, por exemplo, é confesso e não foi um anúncio posterior à eleição. As condições da segurança pública no Rio de Janeiro e a atuação do deputado por essas duas décadas e meia indicam como ele desdenhou o problema e jamais deu atenção a ele. O discurso de direito ao porte de arma não é bem vindo aos que pensam a segurança como problema público e contraria todos os dados estatísticos, inclusive os comparados com outros países. Fora isso, todos sabem que o “bandido bom é bandido morto” se refere a matar os bandidos (ou não) pobres e preferencialmente pretos, dando à polícia liberdade para matar sem constrangimento.

3) Patriotismo e o “Brasil acima de tudo” com vídeos anunciando a entrega da Amazônia, das riquezas nacionais, batendo continência para estadunidenses. Imaginem um vídeo de Lula, ou Haddad, ou Manuela, batendo continência para uma bandeira qualquer, a estadunidense ou a cubana, por exemplo? A falsidade do discurso está exatamente na previsível reação raivosa do segundo exemplo e na justificativa do primeiro como algo razoável.

4) a esquerda como o mal que destruiu o Brasil: TODOS os trabalhadores brasileiros sabem que particularmente nos dois mandatos de Lula o país esteve muito bem, aliás, melhor que em qualquer momento. Ninguém nega isso. Nem os dados estatísticos, o mapa da fome da ONU, o FMI… De onde vem e como sustentar o argumento da destruição do Brasil? Outra coisa que todo brasileiro sabe desde criança é que a corrupção, o “jeitinho”, o “levar vantagem” são marcas não só da política institucional, mas parte integrante das relações cotidianas. Sabe, inclusive, que não é uma marca exclusiva do PT (o que não justifica, obviamente, nenhum tipo de atenuação dos casos comprovados). E, mais importante, teve dados disponíveis, escritos, desenhados, em áudio, vídeo, tabelas, gráficos, demonstrando historicamente a participação dos partidos na corrupção e, inclusive, demonstrando que os envolvidos em casos de corrupção na atualidade estão em massa exatamente do lado do novo presidente.

5) o ataque a negros, gays, mulheres, aos mais empobrecidos, aos indígenas, a xenofobia: isso ocorreu sistematicamente, o tempo todo e, em lugar de pelo menos preocupar, empolgou as multidões.

6) a mudança: como alguém pode levar a sério que esse sujeito representa alguma mudança? Ele não conhece além de algumas frases violentas e do senso comum, não é capaz de debater suas propostas e, fundamentalmente, é um sujeito que está há quase três décadas como um parasita no Congresso Nacional, votando em tudo que contraria os interesses dos trabalhadores e as melhorias de condições de vida dos brasileiros. Ao longo da campanha disse abertamente que acabaria com conquistas dos trabalhadores; seu vice afirmou mais de uma vez que acabaria com o décimo terceiro e com as férias; prometeu aprovar a reforma da previdência que penaliza trabalhadores; defendeu que mulheres devem ganhar menos; defendeu abertamente a tortura e a ditadura, o assassinato, a prisão arbitrária.

Como algo tão velho e rançoso pode aparecer para alguém como símbolo da mudança? Não, todos sabiam que não era isso. Não parece ser possível que alguém tenha sido enganado com tantos dados escancarados. Quem votou no sujeito sabia o que estava fazendo e comemorou a eleição. Muitos descarregando suas armas para o alto.

Ora, se estava tudo tão escancarado, se era perceptível a todos, o que ocorreu então? Penso que uma das respostas está nos preconceitos historicamente enraizados no imaginário geral e que faz parte da formação social brasileira. Uma ideologia do colonialismo, como chamava Nelson Werneck Sodré, que trata parcelas da população como desiguais ou que percebe desigualdades perigosas nas diferenças. Não acredito que todos os eleitores do sujeito estejam decididos a praticar violência direta contra qualquer grupo, mas eles querem que esses grupos tomados como inferiores retornem aos seus lugares sociais e ao silêncio.

Entendo nossa virada à direita, para além dos estímulos externos, como uma reação a avanços que tivemos nos últimos anos e que deram lugar e voz a esses grupos postos à margem e condenados à clandestinidade. Mulheres, gays, negros, pobres são tolerados, desde que não ousem desejar serem iguais, desde que fiquem em seus porões e ocupem as funções sociais historicamente destinadas a eles. As mulheres “recatadas e do lar”, os gays de vida enrustida, os negros e pobres trabalhando e dividindo as posições mais mal remuneradas da divisão do trabalho.

Nossos setores dominantes sabem compatibilizar caridade e chacina com muita tranquilidade. Uma ajudinha aqui para ganhar pontos no céu e manter os pobres submissos e agradecidos, uns tiros ali para não perder o controle da situação. A pequena burguesia é seu cão de guarda e rosna primeiro porque se sente ameaçada nos seus lugares sociais e é mais sensível à aproximação desses setores que podem alçar posições sociais equivalentes às dela. Em momentos de avanço como esse que antecedeu o golpe, de conquistas sociais, se acirram as disputas pelos espaços, ainda mais quando uma crise econômica auxilia ampliando seus efeitos. Chega a hora de “recoloca-los nos seus lugares”.

Nossa pequena burguesia (com maior ou menor intensidade, de acordo com os interesses mais diretos das suas frações), sem dúvida, jamais toleraria viajar em aviões ao lado de pobres e pretos por muito tempo. Mas o que a coloca em movimento reativo mais explícito é o risco que representa a possibilidade do acesso proletário aos seus canais de manutenção e ascensão, como a existência de políticas públicas que dão incentivos e subsidiam atividades de pequenos e médios produtores, políticas afirmativas e compensatórias, como as cotas sociais e étnicas, acesso ao crédito e ao consumo, ampliação das conquistas e direitos dos trabalhadores que ainda viviam os resquícios da senzala, como foi o caso do trabalho doméstico, a elevação da certificação escolar e do ensino superior nos últimos anos e a maior disponibilidade de trabalhadores para as atividades não manuais.  Nesse caso, a pequena burguesia, que se justifica pela ideologia do mérito pessoal e pela certificação escolar, se sente ameaçada pelos efeitos tendenciais do que chamamos de sobrecertificação: quanto mais temos concentração urbana com certificação da educação básica e também do ensino superior, mais as empresas podem elevar os requisitos para contratação de pessoal, inclusive com salários menores e maiores atribuições. O problema da certificação escolar não é o da qualificação do pessoal, mas o de agregar um grande número de novos concorrentes em condições legalmente ou formalmente iguais (a posse do diploma), quebrando o principal instrumento de justificativa da manutenção da pequena burguesia urbana desde o final dos anos 1960 no Brasil.

Um olhar um pouco mais atento pode ajudar a compreender nossa conjuntura como  uma reação a esses avanços sociais, respaldada pelos preconceitos construídos historicamente que alocam, como desiguais, grupos diferentes da população brasileira. Eles votaram em Lula duas vezes e muitos elegeram Dilma. Eles votaram em Lula em vista da grave crise do começo dos anos 2000 e depois dos governos de Collor-Itamar e FHC, de aplicação da cartilha do neoliberalismo. A reação se expressou nos movimentos de 2013 e na apertada vitória de Dilma contra Aécio em 2014. Depois, com as sucessivas derrotas nas urnas e a expectativa de uma nova eleição petista em 2018, novamente com Lula à frente, a reação veio na forma do golpe de 2016. A ideia era passar o comando da nação para as mãos do PSDB (o operador político de confiança do grande capital), uma vez que não conseguia fazê-lo pela via eleitoral.

Mas o golpe saiu pela culatra: o grande derrotado dessas eleições foi o próprio PSDB. O aguçamento do discurso moralista e sabidamente falso levou à presidência um efeito colateral do golpe: Bolsonaro. Nem ele mesmo deve conseguir entender até agora como, de um militar equivocado e de um parlamentar medíocre, pôde sair um presidente da República.

 

Novo artigo

Sugiro a leitura do artigo publicado na Revista Reflexões neste semestre com o título “Imigração e Xenofobia: reflexões a partir de uma perspectiva política e filosófica”. Trata-se do tratamento (ainda provisório e introdutório) desses temas, que têm me direcionado para os estudos do que poderíamos chamar de uma “ideologia do colonialismo”, que poderá ajudar a pensar e compreender, retomando autores importantes como Nelson Werneck Sodré e Fanon, a própria realidade brasileira. Em breve aparecerão mais resultados do trabalho!!!

Seguem os links e o resumo como publicado>

no blog: https://cesarmangolin.files.wordpress.com/2018/08/14-1-2-cesar-unicamp.pdf

na revista: http://revistareflexoes.com.br/artigos/imigracao-e-xenofobia-reflexao-numa-perspectiva-politica-e-filosofica/

Resumo: O objetivo do texto é fazer uma reflexão sobre os temas da imigração e da xenofobia destacando aspectos antropológicos, políticos e filosóficos. A ascensão ou fortalecimento em nossa conjuntura de movimentos ultranacionalistas no campo político da direita e que se reivindicam, em alguns casos, como neonazistas justificam a relevância do tema para a atualidade. Mas o artigo não pretende tratar de algum caso específico: a intenção principal é apontar elementos iniciais e gerais, porém fundamentais para uma reflexão posterior de maior profundidade. Para tanto, o texto está dividido em duas partes: a primeira conceitua imigração e xenofobia a partir da etimologia dos termos para, em seguida, refletir sobre o deslocamento no espaço como condição animal e as especificidades humanas, que explicam as bases do que concebemos como xenofobia; a segunda parte está destinada a uma reflexão, utilizando o exemplo de Aristóteles em suas obras Política e na Ética a Nicômaco , que percebe na tradição filosófica tendências ao tratamento das diferenças étnicas e culturais como elementos fundantes de desigualdades sociais, justificando ou velando a dominação entre povos e culturas distintos.

Palavras-chave: Ideologia – Imigração – Política – Xenofobia.

Os patrões, os trabalhadores e os “patos”.

Cesar Mangolin

É, sem dúvida, grave a situação do país por ocasião dos efeitos da greve dos caminhoneiros. Em um corpo que padece de males diversos qualquer constipação tende a ser a beira do abismo.

Longe de mim querer comparar a nossa formação social a um corpo e suas funções. Apenas utilizo a analogia ou a metáfora para colocar em evidência três elementos que me parecem explicar o alcance da crise para, depois, de maneira rápida, criticar determinadas “visões” da crise que beiram a histeria.

Primeiro, vivemos num país com um governo ilegítimo, fraco, impopular, produto de um golpe que buscou resolver pela força o que as forças atreladas aos interesses da alta finança e do capital estrangeiro (tendo como testa de ferro o PSDB) não conseguiram resolver eleitoralmente.

Segundo, esse governo não é continuidade de qualquer maneira do governo de Dilma, eleito pelo voto popular em 2014, ainda que o golpista de plantão fosse o vice daquele governo. Caso as “agendas” ou os programas de governo batessem, das duas uma: não seria necessário o golpe ou não seria Temer quem ocuparia a presidência. Decorre do primeiro ponto este segundo: a assim chamada agenda neoliberal foi assumida e aplicada por este governo, com pretensões de repassá-la (não sem resistências) adiante para aliados mais fiéis (o Geraldinho Picolé de Chuchu e o PSDB, as marionetes de confiança do grande capital).

Terceiro, a interação desses dois conjuntos pode explicar sinteticamente a crise: um governo impopular e ilegítimo, com alta rejeição nacional, que procura aplicar a toque de caixa medidas que revertam a política dos governos anteriores que buscavam conciliar crescimento econômico com desenvolvimento social. As consequências sociais são imensas e sentidas desde já: efeitos da reforma trabalhista, da ausência de investimentos em políticas públicas, eliminação ou drástica redução de programas sociais, aumento do desemprego, dos preços para o consumidor final, da entrega das riquezas e da soberania nacionais etc.. Ora, não deveria espantar ninguém que os efeitos de tais políticas antipopulares seriam sentidas desde já. Caso fosse para continuar como estava (e não era um paraíso!) não haveria razão para o golpe.

A Petrobras entrou no butim dos vencedores do golpe: embora o povão tenha sido convencido pela grande imprensa de que a Petrobras estava falida e muito (tonto) desinformado continue a dizer que a solução é privatizá-la de uma vez, o fato mesmo é que a empresa persistiu como uma das maiores do mundo e é alvo de interesses poderosíssimos. Aos poucos, ela vai sendo entregue às grandes corporações do petróleo. Os royalties do pré-sal não serão mais aplicados integralmente à saúde e educação (medida aprovada no governo Dilma e eliminada como uma das primeiras medidas do governo golpista). A entrega da Petrobras e a nova política de preços dos combustíveis (implementada por Pedro Parente, um quadro do tucanato) passa a ter como prioridade os interesses dos acionistas, a relação com as “concessionárias” e as grandes corporações. O preço dos combustíveis passa a depender do preço internacional do barril do petróleo e da taxa de câmbio. A desvalorização do real em relação ao dólar também faz com que os preços subam constantemente.

Esses aumentos sucessivos vão pesar no bolso de todos os trabalhadores brasileiros, mas prejudicam aqueles que vivem dos transportes por causa da soma das condições. AQUI ENTRAM OS CAMINHONEIROS. Além do aumento do preço do diesel, houve aumento dos pedágios, dos pneus, das autopeças, dos alimentos e, ao mesmo tempo, uma pressão constante sobre o valor dos fretes. Chamo de caminhoneiros três grupos: primeiro, o daqueles sujeitos que possuem um caminhão e ficam na condição do que costumam chamar de “agregados” de empresas. Eles são, no geral, dependentes diretamente de uma ou no máximo duas empresas, têm destinos e agendas definidos pelas empresas, tempo de viagem determinado pelas empresas. Em tudo, portanto, figuram na prática como empregados dessas empresas, menos num detalhe: o instrumento fundamental de trabalho é de sua propriedade, portanto, os custos da viagem e da manutenção saem do valor recebido pelo frete. O segundo grupo, mais precarizado, é o de motoristas que trabalham com caminhão alheio e continuam a receber pelo valor do frete, com os descontos dos custos da viagem (combustível, alimentação, pedágios) e mais o desconto do percentual pago ao dono do caminhão (seja uma empresa ou uma pessoa física). Por fim, há motoristas de caminhão contratados, cada vez mais raros, que recebem salários.

Vejam: é para esses dois primeiros grupos que o preço do combustível, dos pedágios e demais necessidades fala alto. Num dado ponto de esgarçamento das suas condições, encontram na paralisação das atividades um argumento poderoso. Para os motoristas de caminhão contratados, assim como para motoristas de ônibus, o preço do diesel, dos pedágios, das passagens interessa muito pouco. Mas é claro que parar de trabalhar pode gerar uma melhora nas condições dos dois primeiros grupos no curto prazo, mas também prejudica imediatamente, visto que ganham por fazerem muitas, cada mais rápidas e arriscadas viagens cortando o país.

Aqui entra o segundo grupo interessado no processo: o dos empresários das transportadoras, que procura na situação de crise arrancar vantagens de um governo moribundo, ilegítimo e irresponsável (porque deixou a “corda” esticar para além do possível), como a redução de impostos que afetam seus lucros mais diretamente e em nada tem relação necessariamente com a melhora do valor dos fretes (que tende a ser arrochado), assim como a redução dos impostos de qualquer produto apenas pode fazer aumentar a lucratividade de um dado setor e não a redução dos preços para o consumidor.

A atual greve dos caminhoneiros tem, sem dúvida, grupos e interesses difusos que se beneficiam mutuamente. A participação dos empresários, de um lado, favorece ou facilita a adesão dos caminhoneiros. De outro lado, a luta dos caminhoneiros (legítima e compreensível) dá base social e política para os empresários. Talvez um e outro não fariam sozinhos o que acabaram fazendo juntos. Não é, portanto, nem apenas um locaute, mas a combinação do locaute com uma paralisação de fato dos trabalhadores que percebem seus interesses envolvidos ali. A contradição fundamental entre patrões e empregados não aparece nesse processo. Aqui há uma contradição principal comum que reúne pelo menos temporariamente os dois grupos: é a que envolve empresários e caminhoneiros e a política do governo golpista. Isso pode ser temporário porque não há de tardar que caminhoneiros coloquem em questão o nível de exploração e riscos aos quais estão submetidos pelas transportadoras.

Mas, por fim, resta falar de outro grupo, que tem mesmo entre os caminhoneiros forte expressão: aqueles dessa nova, obtusa e de toda equivocada “direita” brasileira, que tem preenchido as ruas, o mundo virtual e as fossas sépticas pelo Brasil afora desde 2013. Há, sem dúvida, uma porção de tresloucados que clamam pela ditadura militar e que percebem no movimento dos caminhoneiros uma oportunidade para pastar e relinchar a vontade. Mas somente se sentem a vontade por duas razões: primeiro porque o movimento dos caminhoneiros é capaz de paralisar praticamente o país, dado o peso (uma burra opção feita ali nos anos 1950 em favor da indústria automobilística) do transporte rodoviário, gerando profunda insegurança na população; segundo, porque os caminhoneiros são, como regra, politicamente conservadores. Não vamos nos alongar demais nisso, mas assim como motoristas de táxi, esse grupo de caminhoneiros que se vê como autônomo tende a perceber a sua condição de maneira cada vez mais individualizada e dependente dos seus méritos pessoais. Para esses grupos qualquer modificação na “ordem” é uma grande ameaça. Politicamente, possuem disposições bastante similares às da pequena burguesia.

É a soma das disposições políticas mais gerais dos caminhoneiros e dos alucinados com camisa da CBF que faz aparecer como algo forte a ideia da “intervenção militar”, ainda que não haja militares dispostos a fazê-lo e nem haveria razão para tanto.

Por fim, restou um grupo, esse com posições mais progressistas, de esquerda, que se dividiu na análise do processo. Alguns viram ali apenas o locaute; outros um movimento dos trabalhadores apenas; nos extremos, teorias da conspiração diversas sobre um movimento orquestrado para a instalação de uma nova ditadura ou a possibilidade de expandir a greve para outros setores a fazer a revolução socialista. Enfim, uma porção de análises que não conseguem lidar, no geral, com as contradições do movimento mas, principalmente, com dados da realidade objetiva muito mais simples e notórios.

Na minha perspectiva não vivemos uma crise que vai além das reivindicações justas de um grupo de trabalhadores e da fusão deles com os interesses mais imediatos de empresários que pretendem arrancar vantagens de um governo fraco, ilegítimo e que nada tem mais a perder. Que os efeitos dessa paralisação são grandes todos estamos vendo. Mas não há razão para enxergar aí nem o aprofundamento do golpe, muito menos a revolução. No primeiro caso, porque caminhamos para o fim desse governo e a possibilidade da realização do projeto golpista: passar às mãos do PSDB via eleições o comando da agenda neoliberal no país, com Lula preso e sem adversários mais difíceis de serem batidos.  No segundo caso, ficar dizendo, à esquerda, que o movimento dos caminhoneiros abre a possibilidade de fazermos uma greve geral e, daí, derrubarmos o governo golpista e instalarmos um governo revolucionário e popular é apenas sonho do revolucionarismo pequeno-burguês. Nós, da esquerda, fomos incapazes de evitar o golpe dessa quadrilha mequetrefe. E não evitamos o golpe porque não quisemos: não tivemos força política e base social para isso. É a partir desse tipo de constatação objetiva e concreta que precisamos pensar a realidade e as possibilidades que temos nessa conjuntura e no futuro próximo.

Claro que as imprevisíveis reações da população podem mudar as coisas e ninguém aqui tem bola de cristal ou pretende prever o futuro (na Praia Grande – SP, por exemplo, tem ocorrido saques a supermercados e “arrastões”). Mas a tendência é que logo as coisas retornem aos seus lugares, com as condições de vida dos trabalhadores brasileiros piorando, como já vinha ocorrendo. Fica a necessidade de lutar para que ocorram as eleições de outubro e emplacar uma derrota eleitoral ao menos nos golpistas: essa é, na correlação atual das forças, a hercúlea tarefa da esquerda consequente e de setores progressistas do Brasil. O resto é conversa fiada, pataquadas de extremos da esquerda e da direita.

1948-2018: O rastro de sangue do facho-sionismo

João Quartim de Moraes

Na aldeia palestina de Deir Yassin, fincada numa colina rochosa na orla oeste de Jerusalém, um pequeno grupo de três pedreiros, três talhadores de rocha e um motorista de caminhão estavam terminando seu turno de vigilância durante a noite de 8 para 9 de abril de 1948. Não havia como não se sentir ameaçado.

Entre dezembro de 1947 e março de 1948, muitas outras aldeias (Beld Shaikh, Sasa, Karf etc.) haviam sido varridas do mapa pela Haganah, a principal organização armada clandestina sionista, e por dois esquadrões da morte especializados nos métodos mais cruéis e covardes de ação terrorista, Stern e Yrgun, nos quais os futuros primeiros-ministros israelenses Begin e Sha­mir começaram suas peculiares carreiras militantes. Decididos a conquistar o máximo de terreno para o Estado que pretendiam proclamar unilateralmente no dia 15 de maio de 1948, data fixada pela ONU para o término do mandato britânico, os destacamentos de choque sionistas estavam utilizando a fundo a superioridade de sua organização militar e de seus armamentos, ampliaram a escala de sua ofensiva.

Ás 4:30 da madrugada de 9 de abril, tropas de assalto combinadas do Stern e do Yrgun irromperam em Deir Yassin. O grupo de vigilância as viu chegar e deu o alerta. As armas de que dispunham os moradores eram irrisórias, comparadas às dos assaltantes. Mesmo assim eles resistiram cerca de duas horas, até esgotarem as munições. Começou então uma orgia de bestialidade que sequer poupou mulheres grávidas, cujo ventre foi aberto a facadas. Duzentos e cinquenta e quatro palestinos foram assassinados; dezenas de meninas foram estupradas, um recém-nascido foi arrancado dos braços de sua mãe, jogado ao chão e pisoteado. A obra de destruição da aldeia foi completada com dinamite. (Um relato mais circunstanciado da chacina de Deir Yassin está no livro Ô Jerusalém, escrito pelos jornalistas Dominique Lapierre e Larry Collins; há tradução em português). Os depoimentos dos poucos sobreviventes aos policiais britânicos foram reunidos por Sir R. C. Catling, diretor-geral adjunto do Criminal Investigation Department britânico na pasta “secreta e urgente” nº 179/11017/65. Eles contêm pormenores horripilantes.

Setenta anos depois, em 14 de maio passado, a execução em massa de palestinos de Gaza mobilizados contra a transferência para Jerusalém da capital de Israel foi mais rápida. O exército israelense simplesmente atirou na multidão desarmada, matando sessenta e um manifestantes, que se somaram aos que já vinham sendo sumariamente executados desde o início dos protestos em 30 de março, num total de pelo menos 112 palestinos, entre os quais 14 crianças. A responsabilidade por mais este crime contra a humanidade cabe não somente ao governo facho-sionista, mas também a Trump, que tomou a decisão provocadora de transferir para Jerusalém a embaixada estadunidense, violando acintosamente as Resoluções 476 e 478 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, de agosto de 1980, que respectivamente declararam a parte oriental da milenar capital da Palestina território ocupado por Israel e convidaram as embaixadas então instaladas em Jerusalém a se transferir para Tel Aviv. Todas acataram a resolução. Essa vitória diplomática e moral de um povo esbulhado e humilhado é agora torpedeada pelo Al Capone da Casa Branca.

O covarde massacre de Gaza foi condenado mesmo pelos satélites europeus da Otan. Só os estafetas de Trump e os funcionários do Estado terrorista atreveram-se a tentar pôr a culpa no Hamas, que governa Gaza (transformada num enorme ghetto bloqueado por terra, mar e ar pelas forças armadas israelenses), de ter usado crianças como escudos humanos. Mesmo a supor que houvesse um átomo de verdade nessa falácia, a chuva de balas foi indiscriminada e todas as vítimas foram atingidas dentro dos limites da faixa de Gaza.

Nem toda arrogância é cínica, nem todo cinismo é boçal, mas o cônsul de Israel em São Paulo juntou esses três maus traços de caráter declarando à revista Veja que “Se quiser, Israel poderia destruir Gaza em apenas uma hora” (16 de maio de 2018). Não sabemos se o mau português é do Cônsul, da Veja ou dos dois juntos, mas a ambiguidade do enunciado sinaliza a torpeza do raciocínio. Dizer: “se, Israel quisesse, poderia”, estaria sugerindo que Israel não quer extermínio rápido, portanto que a ideia é limitar-se a matanças esporádicas; dizer: “se Israel quiser, poderá”, é ameaçar diretamente. O Consulado israelense e o periódico de extrema direita ficaram no meio do caminho, não dizendo nem uma coisa nem outra, mas deixando confusamente entender ambas. Eles insultam não somente os princípios humanitários consagrados na infelizmente impotente Carta da ONU, mas também a inteligência alheia. Qualquer força aérea pode destruir cidades indefesas em uma hora, talvez em meia hora. A Luftwaffe nazista fez isto na aldeia basca de Guernica em 1937. Israel, que dispõe de armas nucleares toleradas pela “comunidade internacional” (=o bloco imperialista e seus satélites) poderia, seguindo o exemplo de seus protetores estadunidenses em Hiroshima e Nagasaki, aniquilar grandes concentrações humanas em um minuto. Não o fazem por duas razões complementares: os dejetos radioativos de uma explosão nuclear em sua fronteira também os atingiriam e, sobretudo, potências que não comem na mão do Pentágono dispõem de arsenais nucleares bem maiores do que os deles. Tal é a lógica da força bruta de destruição maciça.

A continuidade do golpe e a contradição principal

Cesar Mangolin

O golpe ainda não se completou. O caráter de classe do golpe e, portanto, a sua razão fundamental, vai agora aparecer de maneira mais escancarada, afinal se trata de garantir a consumação dos interesses do consórcio que reuniu a alta finança, a burguesia associada, grandes corporações estrangeiras e a geopolítica mundial em favor dos EUA, contrário às políticas do ciclo dos governos petistas no sentido de perceberem a possibilidade de ganhos impedidos por certa preponderância de uma fração da burguesia que prestava os serviços voltados ao desenvolvimento de alguns setores fundamentais e pelas políticas de desenvolvimento social, que destinavam porções da riqueza produzida socialmente e da arrecadação à melhoria das condições de vida de populações secularmente deixadas na linha da miséria e da pobreza, bem como para o investimento em serviços públicos fundamentais para essa população, como a educação pública e a saúde. Esses setores do consórcio golpista não deixaram de lucrar bastante com o ciclo de governos encabeçado pelo PT: apenas sabem que é possível ganhar muito mais e recolocar o Brasil na condição de um simples satélite do imperialismo, um país da periferia do sistema que serve ao centro, quebrando as pretensões de uma autonomia na política internacional, estabelecidas e ensaiadas pela entrada no BRICS e por acordos bilaterais com países em condições similares de desenvolvimento e ocupando lugares comuns no quadro internacional.

A pequena burguesia histérica aparecerá agora como um problema a ser resolvido. Os criadores da onda fascistizante precisarão dar conta do monstro que criaram e deverão procurar as formas de fazê-lo sair de cena.  O consórcio nacional e internacional da burguesia golpista precisa se desvencilhar das motivações da base social que criou para o golpe. O suposto combate à corrupção deu impulso ao discurso moralista e repleto de preconceitos e ódio, levou a uma histeria coletiva, criando um amontoado de gente para o qual não há história, não há lei, não há nada: apenas a ação de cães raivosos, repetindo uma ladainha decorada, sem  sentido e com ações cada vez mais violentas. Será uma tarefa árdua e não sem riscos e contradições a tentativa de apascentar sua récua, uma vez que ocorreu a prisão daquele que oferecia maior risco ao projeto golpista, supostamente a situação eleitoral mais tranquila.

O golpe, como todos sabem, nada teve com o combate à corrupção. Ou teve, mas da maneira inversa daquela que entenderam seus cães de guarda, como foi bem expresso naquele áudio do senador Romero Jucá, que explicitava a necessidade de reunir, além dos já citados setores, também os nossos seculares bandidos que vivem da política institucional, os militares e o judiciário. Tratava-se de atender aos interesses diferentes desses setores todos, mas que apontavam para uma necessidade imediata: a derrubada da presidenta Dilma Rousseff, cujo governo permitia a investigação dos crimes de corrupção. Essa era a sangria que deveria ser contida, segundo Jucá: era necessário derrubá-la para que todos eles não fossem pegos, já que não conseguiram derrotar esses governos nas urnas. Sempre é bom insistir que foram os méritos dos governos de Lula e Dilma e não os seus defeitos que foram julgados e condenados. Nossa história possui exemplos de momentos similares, em que avançamos nas conquistas sociais e temos, na sequência, uma saída golpista, que lança tudo ao chão e nos obriga a recomeçar quase do zero. Podemos pensar na crise que envolveu as duas deposições de Vargas (a segunda mais dramática, sem dúvida, com o suicídio do presidente) e a conjuntura do começo da década de 1960 e a deposição de João Goulart, seguida da instalação da ditadura civil-militar que persistiu até 1985, de triste memória em todos os aspectos.

Não há ninguém desinformado nessa história. Ao concentrarem seus esforços e mostrarem seus dentes apenas para os casos de corrupção envolvendo o PT e outros participantes do governo, todos fizeram vista grossa à continuidade das práticas bastante conhecidas de todos nós. Nesse caso, há a complacência com alguns partidos e políticos e a severa perseguição daqueles que representam o ciclo de governos anterior. Perseguição que chega ao cúmulo da mentira e de julgamentos que não têm por base as provas necessárias para condenação. Inclusive fazendo do STF um órgão que resolve legislar, extrapolando o seu papel e indo contra a Constituição Federal, o que escancara a fraude e o golpe, além de detonar uma crise dentro do próprio judiciário.

Mas tudo isso apenas revela o caráter de classe do golpe, bastante distante dos discursos que têm motivado o ascenso de grupos e militantes de uma nova direita, que não entende bem o que isso significa. O golpe ainda não terminou. A ideia é que ele termina com a passagem do governo do Brasil ao PSDB. Isso exige uma autocrítica: há pouco menos de um ano, respondi umas perguntas feitas pelo camarada Eduardo Vasco, para o Pravda. Vivíamos o momento das denúncias contra Temer e os rumores de um golpe dentro do golpe. Ali, acreditei que o presidente golpista não seria capaz de se sustentar e que cairia em breve. Errei feio: não contei com a capacidade de articulação e com o poder de compra do “apoio” necessário na mídia, no Congresso e no Judiciário (com promoções e bilhões distribuídos de acordo com a necessidade do momento). Outro erro cometido, claro, foi a tentativa de “prever” o futuro, como algo determinado, e não as possibilidades postas e as probabilidades.

Pois bem, errei ao acreditar que o golpista Temer cairia ali, mas não insisto na compreensão de que a consumação do golpe passava, necessariamente, pela entrada do PSDB no governo. Faltou ali pensar numa outra opção tática do próprio PSDB: entrar com um mandato tampão após uma saída de Temer poderia complicar as coisas nas eleições de 2018. Melhor esperar e cumprir outros passos importantes para garantir a vitória eleitoral (ou tentar fazê-lo pelo menos), incluindo aí uma dúbia posição diante da população com relação ao governo golpista de Temer (falo da tentativa de parecer não pertencer ao governo, enquanto lhe dá base), passando, obviamente, pela prisão de Lula e impedindo sua candidatura.

Por que o PSDB? Repito aqui coisas já ditas naquela entrevista. O PSDB é o fiel escudeiro no país dos interesses do capital estrangeiro, da alta finança internacional e da burguesia associada. Foram quadros do PSDB, como José Serra, que estiveram nos EUA antes do golpe ajustando as coisas e prometendo a entrega da Petrobras. O PSDB é o partido que assume  como programa a agenda das políticas neoliberais e a ideia de que a economia brasileira deve caminhar, necessariamente, atrelada e submetida aos interesses e grandes lances do capital estrangeiro.  FHC em seus dois mandatos aplicou fielmente a cartilha do FMI, do Banco Mundial e do Consenso de Washington. A histórica foto de FHC com a língua de fora, qual cachorrinho manso, enquanto Clinton (que era presidente dos EUA), por trás,  se apoiava em seus ombros, é uma boa síntese da relação do PSDB com o imperialismo. Não foi a toa que Serra seguiu, ainda que com incompetência patente e grosseiramente assumida,  para o Ministério das Relações Exteriores logo após o golpe. O PMDB, Michel Temer  e sua camarilha não são plenamente confiáveis.

O golpe não pode ser entendido, portanto,  como uma pendenga entre ladrões de galinhas ou uma disputa entre partidos: em síntese (e é necessário insistir nisso!) o golpe deve ser compreendido como a derrubada pela força (já que não tiveram a capacidade de derrotá-lo nas urnas,como ocorreu na Argentina, por exemplo) de um ciclo de governos cujo programa para formação social capitalista brasileira tinha pretensões  neodesenvolvimentistas. Podemos reunir uma série de frações burguesas  que não estavam plenamente favorecidas por esse programa e de interesses  diversos que explicam o golpe, tendo a crise mundial do capitalismo como pano de fundo: os interesses das frações da burguesia brasileira associada , os interesses das grandes corporações internacionais (pelo petróleo brasileiro, por exemplo),  a política externa mais autônoma e a aproximação do Brasil de um eixo fora das asas dos EUA e a formação do BRICS, a ameaça de democratização e, ao mesmo tempo, de um marco regulatório dos meios de comunicação, os interesses de partidos e políticos ligados às históricas benesses do seu próprio aparelho de Estado e as sucessivas derrotas eleitorais. Isso tudo formou uma unidade de ruptura, ainda que com interesses difusos, mas uma unidade que tornou o golpe viável, após uma intensa campanha midiática e a geração de uma crise política que começou a afetar inclusive a economia.

Mas, retornando ao início do texto, o golpe possui, como qualquer golpe, uma dessas frações ou um desses grupos como dominante e, em última instância, será aquela fração que precisa se impor no processo. O processo eleitoral tende para o favorecimento da vitória de um grupo de maior e estrita confiança para fazer com que os interesses do grande capital internacional e da burguesia local associada prevaleçam sobre os demais. Os fantoches desses interesses pertencem ao PSDB. É a ideia de um mandato, finalmente,  conquistado pelo voto, após quatro derrotas eleitorais.

Mas, como diria Garrincha, é preciso combinar essa tática com os russos… Ainda que blindados pela grande imprensa, os tucanos possuem dois grandes problemas: o primeiro é que não possuem força política suficiente para escapar do jogo “republicano” da compra de apoio, muito menos escapar do loteamento do patrimônio público para que seja sangrado pelo grosso dos nossos políticos profissionais e seus partidos, verdadeiros bandidos que provam todos os dias que o crime, bem organizado ou não, sempre compensa. Aliás, a ausência da força política se deve ao fato de que a tucanagem  participa ativamente e com os seus melhores quadros do mesmo esquema. O segundo grande problema é a corja fascista gerada por esse processo, que não possui, necessariamente, uma direção bem consolidada e pode muito bem sair totalmente de controle, como vimos recentemente nos eventos do sul do país e temos cotidianamente notícias de suas barbaridades e violências. Essa gente tende a não ver o PSDB como o vê a alta finança internacional e a burguesia associada.

Enfim, temos um quadro bastante complicado. Penso que, tendencialmente, devam começar a aparecer nos meios de comunicação “denúncias” envolvendo o presidente golpista de plantão e outros candidatos à presidência. Também deve ser possível que, em breve, os tucanos declarem o rompimento com o governo, num lance apenas midiático. Mas o fato mesmo é que a prisão de Lula apenas escancara o caráter de classe do golpe e abre uma etapa, com grandes dificuldades e com o imprevisível e imponderável jogando um papel importantíssimo: algumas faíscas podem resultar num grande incêndio. Isso porque poucas vezes estivemos tão próximos de fazer explodir o barril de pólvora que é a formação social brasileira e seus seculares mecanismos de manutenção da exploração popular. O barril está sem a guarda devida, pois falta quem seja capaz de aglutinar as forças necessárias para garantir a hegemonia do processo.

Correndo o risco de parecer banal, penso ser necessária muita atenção para não morder as iscas que pretendem precipitar as organizações de esquerda às ruas com disposições mais radicais em condições acentuadamente desiguais de luta. Vale manter a objetividade e compreender a correlação de forças. Na nossa conjuntura, a contradição principal (que se expressa na oposição entre as frações burguesas que encabeçaram o golpe e os interesses do desenvolvimento nacional e autônomo e da melhoria das condições de vida dos trabalhadores) ainda passa pela necessária articulação de uma frente capaz de derrotar a tucanagem e congêneres nas eleições de outubro. Uma vitória eleitoral de forças de esquerda ou articuladas numa frente mais ampla e comprometida com a retomada e o avanço progressista das políticas anteriores derrotaria o golpe e colocaria para as forças de esquerda condições mais propícias para a abertura de uma nova fase de lutas, qualitativamente diferente.