Em memória de todos os que tombaram contra a ditadura

(Nota Política do PCB)

A Comissão Política Nacional (CPN) do Partido Comunista Brasileiro (PCB) vem a público saudar a Articulação Nacional pela Memória Verdade e Justiça – uma entidade que congrega organizações políticas, movimentos sociais, sindicatos, coletivos de juventude, grupos artísticos e familiares de mortos e desaparecidos – e manifestar seu apoio ao trabalho que vem sendo desenvolvido no sentido de construir um grande movimento de massas para que se apurem os crimes da ditadura, se estabeleçam as ligações entre os grupos empresariais, funcionários públicos e a máquina da tortura no Brasil e crie condições para que se possa punir os torturadores e assassinos de toda uma geração de jovens, trabalhadores, camponeses, sindicalistas e militantes sociais e políticos que lutaram contra a ditadura no Brasil.
A CPN avalia como positiva a instalação da Comissão da Verdade pelo governo. Lembramos, todavia, que foi preciso uma condenação do Brasil por parte da OEA para que o governo pudesse tomar essa medida, que protelava para não melindrar as Forças Armadas e os setores conservadores de sua base de sustentação. Mas alertamos que esta comissão tem uma composição heterogênea e não possui sequer representantes dos familiares dos mortos e desaparecidos. É um sinal de que a Comissão foi composta para uma conciliação nacional, ou seja, “virar esta página da história” e o Brasil seguir em frente na direção de se transformar numa potência capitalista.
Por isso, é necessária a organização de um grande movimento social, envolvendo organizações sindicais, estudantis e de bairro, manifestações de rua em todo o País, para que o resultado dos trabalhos não se transforme numa conciliação com os algozes de nosso povo. O PCB, como uma das organizações que mais brutalmente foi reprimida pela ditadura – basta dizer que um terço de seu Comitê Central foi assassinado na tortura e desaparecido – se compromete a levar esta luta até o fim, em homenagem não apenas aos nossos mortos e torturados, mas também a todos que sofreram e tombaram na luta contra a ditadura.
A CPN também avalia que este não é o momento de privilegiar o debate das divergências sobre as formas de lutas das organizações de esquerda durante a ditadura, até mesmo porque a ditadura prendeu, torturou e assassinou camaradas de todas as organizações. Este é o momento de reverenciar todos os que lutaram contra o regime militar, especialmente aqueles que rubricaram com sangue a luta contra a ditadura. São todos eles nossos heróis, desde os que se alçaram em armas nas cidades, os guerrilheiros de Caparaó e do Araguaia, até aqueles que desenvolveram silenciosamente um paciente trabalho de organização dos trabalhadores nas fábricas e nos sindicatos, aqueles que organizaram a população nos bairros, os jovens nas organizações estudantis, os intelectuais e o mundo da cultura em geral. Continuaremos a sua luta e não daremos trégua aos inimigos do nosso povo.
As recentes informações de um agente da ditadura de que os corpos de vários companheiros foram incinerados em um forno de uma usina de açúcar em Campos chocaram a opinião pública e mostraram a bestialidade com que os facínoras da ditadura agiam contra os prisioneiros políticos. Entre os corpos incinerados estariam os de quatro camaradas do PCB: Davi Capistrano, João Massena, Luiz Maranhão e José Roman.
Associamo-nos à correta iniciativa do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no sentido de que esta fazenda de Campos seja desapropriada para fins de reforma agrária e que sua sede sejatransformada em um memorial da tortura e da brutalidade da ditadura. Ali se encontra o verdadeiro cemitério de nossos heróis, independente da organização a que pertenciam.
Para reforçar esta luta, achamos fundamental que a Articulação Nacional pela Memória Verdade e Justiça organize um expressivo e unitário ATO NACIONAL na fazenda onde foram incinerados os nossos camaradas, com ocupação de suas terras, para honrarmos a trajetória de lutas desses nossos heróis.
A Comissão Política Nacional do PCB manifesta sua solidariedade a todos os familiares dos presos, mortos e desaparecidos e às entidades que se constituíram para denunciar os crimes da ditadura e reafirma que esta luta não foi em vão e que todo trabalho de denúncia, investigação, de acúmulo e documentação realizado nestes anos será não só um precioso aporte para a memória dos nossos heróis mortos e desaparecidos, mas também um importante testemunho para as novas gerações.
Não silenciaremos enquanto toda a verdade não for apurada!
Não silenciaremos enquanto a justiça não for feita!
São Paulo, 13 de maio de 2012
(Comissão Política Nacional do PCB)
Publicado em: às 21/05/2012 em 13:00  Deixe um comentário  

A “cura gay”, o aborto e a cruzada contra a vida

Cesar Mangolin

Ontem assistia às movimentações no congresso para validar a “cura gay”. É de assustar. Semanas atrás vimos a reação dos cristãos contra a aprovação do aborto de anencéfalos. Outro susto. Um pastor conhecido disse na TV que os evangélicos devem tomar o Congresso Nacional, o poder executivo e fazer com que as leis nesse país estejam de acordo com o requisitos de deus. Isso significaria, segundo as sábias palavras do obtuso líder, retirar das mãos do demônio a nação brasileira. Susto, susto, susto.

Que os meus amigos cristãos me perdoem, e que me perdoem aqueles cristãos que são mais progressistas e também aqueles que sabem colocar no lugar correto a fé, mas alguns dos mais barulhentos seguidores de Jesus estão empenhados, de forma intolerante e preconceituosa,  em construir a Jesulândia! (tomei o termo emprestado de um professor amigo). O que escrevo abaixo não serve, evidentemente, a todos os cristãos.

A Jesulândia seria o mundo perfeito, porque nela ninguém faria aborto, todos sentiriam atração pelo sexo oposto, fariam sexo apenas com fins procriativos e se submeteriam de bom grado às leis de como viver determinadas por algum pastor ou padre em nome de deus, visto que eles são seus porta-vozes, pontas de lança e testas de ferro dos bondosos interesses de quem produziu essa merda toda.

Já perdi a linha… Vou me recompor.

A intolerância dos cristãos me assusta demais. Viver de acordo com preceitos que julgam reais e razoáveis é direito deles. Querer obrigar que todos vivam como vivem, que todos se submetam a regras imbecis que violam a vida, em lugar de defendê-la, já é demais. Dê poder a quem pensa assim e teremos o retorno dos porões da inquisição e da matança dos infiéis.

Fazem um jogo sujo, trabalhando com a desinformação e a ignorância, apelando para sentimentos nobres que são manipulados em nome da salvação. Salvação de quem? Demônio de onde? O diabo, que quer dizer aquele que divide, é produto das igrejas, para fazer temer aqueles ignorantes que julgam ter encontrado o sentido da vida: penar esperando a salvação, encher o saco dos outros para que vivam como eles vivem, carregar o peso do assassinato  de um homem que é apresentado estropiado pregado numa cruz.

Encontrar sentido num mundo sem sentido. Dar sentido ao vivido é uma necessidade antiga. A ideologia dá conta disso em qualquer forma de organização humana. Tem também o mesmo resultado: ao atribuir nossas misérias às situações de pecado, nossos fiéis deixam de fazer a crítica necessária à organização política, à exploração do homem pelo homem. Fazem vista grossa aos que morrem de fome, à juventude que é assassinada nas periferias. Ver muito espírito no feto e nenhum no marginal, como diz a música de Caetano e Gil, é praxe.

Não é raro encontrar os que vivem nessa confusão defendendo pena de morte e coisas assim. Pena de morte aos pobres que partem para a criminalidade, obviamente. Os milionários são como que vacinados contra a sanha assassina dos que defendem a pena capital.

Estamparam nas redes sociais uma foto de uma menina (que não era anencéfala, pois os anencéfalos não costumam chegar vivos ao parto e, quando chegam, vivem apenas algumas horas) para tratar como assassinos os que defendem o direito a autodeterminação e à saúde das mulheres.  Ao mesmo tempo a grande maioria é contra qualquer método contraceptivo, o que faz com que doenças diversas e nascimentos não desejados ocorram aos milhares.

Qualquer médico de botequim sabe que a gravidez de um anencéfalo coloca em risco grave a vida da mãe.  A má formação gera reações diversas no corpo da mãe, que podem levá-la a hemorragias internas e à morte, fora a pressão psicológica da própria gravidez. Exames da atualidade têm como determinar com 100% de garantia o feto anencéfalo e retirá-lo a tempo de não causar maiores danos à mãe.

Milhares de abortos são feitos todos os anos no Brasil e milhares de mulheres morrem ou têm seqüelas terríveis por se submeterem às condições terríveis de clínicas clandestinas. É uma questão de saúde pública, não uma questão moral.

Mas nossos bem intencionados cristãos não vêm nisso vida. O feto está cheio de vida e, depois de nascido, vira também algo que pode e, parece em alguns casos, merece morrer, dadas as condições de vida precárias às quais estarão submetidos. Mas isso já não é da alçada dos nossos bons discípulos… Os que nascem devem se conformar à vontade de deus e esperar esperar, esperar… Resignação é seu primeiro mandamento.

Não vejo marchas de crentes contra a morte por fome, não vejo a bancada evangélica se movimentar contra o capital, que ceifa vidas aos milhares todos os dias, nunca vi um desses pastores fazendo um discurso na TV contra a exploração do homem pelo homem.

Adaptados à ordem, como sempre o cristianismo esteve desde sua romanização, apenas apontam seus dedos, como guardiães de uma moral escravizante e que avilta a vida, aos que não compreendem de onde vem tamanha crueldade.

Não é a felicidade das pessoas que está em questão. É a necessidade de obedecer fórmulas ultrapassadas que geram resignação e subserviência. A homoafetividade e a homossexualidade devem ser , no mínimo, respeitadas. Pretender achar uma doença onde apenas existe vida humana faz parte de qualquer grupo arbitrário e com fortes tendências totalitárias.

Jesus, que no evangelho diz que veio trazer a vida e a vida em abundância, deveria se espantar com tamanha estreiteza. Talvez repita por esses dois mil anos a frase que dizem ter soltado na cruz: perdoe a todos, eles não sabem o que fazem. Afinal, e é bom lembrar, ele mesmo morreu por não se enquadrar nas determinações insanas e formais da sociedade de sua época.

Aprendi nos meus tempos de convento e de teologia da libertação a ver o cristo crucificado nos oprimidos, nos explorados, nos que têm a vida negada em nome da reprodução e acumulação do capital. Aprendi lá que sua luta era a da libertação para a vida, para a vida plena, cheia de sentido, e para a construção, ainda que deficiente, de uma sociedade que se assemelhasse ao proposto pelo reino dos céus. Uma sociedade justa, que defende a vida e é contrária a toda e qualquer forma de preconceito, de discriminação, de exploração.

A própria igreja pôs fim à teologia da libertação para retomar, de forma mais sombria e conservadora, a moral que castra, que é do mundo das aparências, permitindo que horrores diversos ocorressem às escondidas. Como os fariseus da época de Jesus, os cristãos apontam seus dedos contra os que não vivem de acordo com seus ditames preconceituosos. Apontam seus dedos contra a vida.

Deveriam fazer como seu mestre fez: estar ao lado dos que são marginalizados e sofrem com os preconceitos. Jesus foi muito mais tolerante e nisso residia o melhor de sua mensagem em defesa da vida. Lembrem que ele não engrossou o coro dos que pretendiam apedrejar a prostituta, mas a defendeu e a acolheu.

Os cristãos são co-responsáveis pelas milhares de crucificações diárias dos nossos dias.

Caso Jesus voltasse hoje, os cristãos mesmos o pregariam novamente na cruz.

 

Publicado em: às 08/05/2012 em 21:47  Comentários (9)  

1º DE MAIO É DIA DE LUTA E RESISTÊNCIA DOS TRABALHADORES

(Nota Política do Comitê Central do PCB)

São vários os desafios para a classe trabalhadora neste 2012. A agudização da atual crise do capitalismo desperta a sanha imperialista por novas guerras, como no caso da Síria e do Irã; desmascara o poder dos grandes bancos e das corporações industriais multinacionais sobre a autodeterminação dos povos, como na Grécia e na Itália; e traz mais arrocho econômico e retirada de direitos para trabalhadores de todo o mundo – inclusive de nós, brasileiros.

A crise encontra no Brasil um governo que se alia cada vez mais ao capital e contra os trabalhadores, como comprovam os cortes no Orçamento, de cerca de R$ 50 bilhões em 2011 e outros R$ 50 bilhões agora em 2012, e a retirada de direitos trabalhistas através de legislação que altera a relação entre patrões e empregados nas médias e pequenas empresas.

Nem mesmo a “medida de contenção” dos anos anteriores o governo está disposto a oferecer: a liberação de crédito (uma política de endividamento crescente da população que dá às camadas populares a ilusória sensação de melhoria de vida) é cada vez mais dificultada pelo sistema financeiro.

O Governo Dilma atende prioritariamente aos interesses e necessidades dos grandes banqueiros, dos especuladores e das grandes empresas que exploram o trabalhador brasileiro: ao mesmo tempo em que retira recursos do Orçamento para as pastas de Saúde e Educação, entre outras, concede benefícios fiscais direcionados a estes setores da Economia, como no último “pacotaço” do Executivo, apoiado pelo sindicalismo patronal e por representações da classe trabalhadora, como a CUT, a CTB, a Força Sindical, que agem em favor do capital e aderiram ao governo e sua política, fazendo o jogo da conciliação de classes.

Dilma mantém intacta a sangria do pagamento dos juros e amortizações da dívida pública brasileira: mesmo antes do corte de R$ 50 bilhões, 47,19% dos recursos do orçamento da união previstos iriam para o pagamento de juros e amortizações da dívida pública, enquanto a Saúde ficava com 3,98% e a Educação com 3,18%.

Esses fatores explicam o fato de sermos a sexta maior economia do mundo e ocuparmos a 84º posição no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), com o sucateamento da saúde pública, as escolas mal equipadas e baixos salários para os profissionais da saúde e educação, transporte público precário nos grandes centros urbanos, falta de moradia digna e péssimas condições sanitárias para um número ainda enorme de lares brasileiros.

Continuam os leilões dos campos de petróleo e de áreas de exploração no pré-sal, com a participação de empresas que não têm as condições técnicas de operar nesses campos sem colocar em risco o ecossistema, como no recente caso da Chevron. São priorizados os lucros das grandes empreiteiras, as maiores beneficiárias, juntamente com os bancos, dos governos FHC e Lula, com obras como a de Belo Monte e Jirau e as instalações esportivas para a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

Por outro lado, cresce a insatisfação de diversos grupos sociais contra este estado de coisas, como atestam as manifestações quase diárias contra a calamidade dos transportes públicos. Os trabalhadores das obras do PAC também reagiram às condições de superexploração e semiescravidão impostas pelas empreiteiras como a Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa, Queiroz Galvão, Mendes Júnior e outras – muitas delas financiadoras das campanhas eleitorais do PT e de seus aliados.

Como demonstrou a manifestação em favor do “Pacotaço” ocorrida em São Paulo , as centrais sindicais ligadas ao governo repetirão este ano as grandes festas no 1º de Maio, com artistas famosos, distribuição de brindes, bebidas e sorteios, além de muito discurso a favor do Governo e do “pacto entre trabalhadores e patrões”. A velha máxima do “pão e circo” será a tônica em muitos centros urbanos do país, buscando desarmar ideologicamente a classe trabalhadora brasileira no enfrentamento ao patronato e ao sistema capitalista.

Para o PCB, a hora é de reforçar a unidade dos movimentos populares, das forças de esquerda e entidades representativas dos trabalhadores, no caminho da formação de um bloco proletário capaz de contrapor à hegemonia burguesa uma real alternativa de poder popular, com a organização da Frente Anticapitalista e Anti-imperialista, que possa ordenar ações unitárias contra o poder do capital e do imperialismo, rumo à construção da sociedade socialista. Propomos a luta por:

Redução da jornada de trabalho sem redução de salários

Salário mínimo do Dieese; Fim do imposto de renda sobre os salários

Contra a transformação da Previdência em Fundo de Pensão, contra o Funpresp

Solidariedade internacionalista à luta dos trabalhadores

Unidade da classe trabalhadora numa Frente Anticapitalista e Anti-imperialista

Pela Reforma Agrária

Contra a criminalização dos movimentos sindicais e sociais em Luta

Contra o modelo de desenvolvimento econômico a favor do capital

Por uma sociedade Socialista

PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO – PCB

COMITÊ CENTRAL

Maio 2012

Publicado em: às 28/04/2012 em 19:12  Deixe um comentário  

Tortura durante a ditadura, relato de ELEONORA MENICUCCI DE OLIVEIRA

Caros

colo abaixo o relato sintético das torturas sofridas pela professora Eleonora. Faço isso com a seguinte disposição: há uma série de fascistóides (militares ou não), que têm publicado bastante sobre a sua ação na ditadura, num movimento contrário à Comissão da Verdade. Já tive oportunidade de escrever um texto sobre isso aqui no blog.

Esses sujeitos pretendem confundir a cabeça das pessoas, dizendo que os comunistas teriam também agido de forma similar à deles, mostrando fotos de ações dos grupos armados e de mortes ocorridas nestas ações.

É necessário, no entanto, levar em consideração:

1 – que os mortos nos confrontos com as forças da repressão, ou seja, mortos em combate, não são o centro das ações e nem dos objetivos da Comissão. Nem mesmo os setores da esquerda revolucionária têm denúncias a fazer nesses casos em que a morte se deu em combate aberto, matando combatentes dos dois lados.

2 – o que se configura como crime, mesmo dentro da legislação internacional dentro dos marcos do capitalismo, em tratados assinados pelo Brasil, é a prática da tortura, do assassinato, da ocultação de cadáveres, de pessoas que estavam sob a guarda do Estado, ou seja, aprisionados ou em condições nas ruas em que não havia chance de reação.

3 – a tortura como “método”, como gostam de dizer, é uma abominação, que não foi praticada pelas organizações de esquerda.

4 – Há uma grande número de presos e torturados, também de “desaparecidos”, que não tinham ligação com as ações e organizações armadas, além da prática da tortura em familiares para que “dobrassem” mais rapidamente os que podiam resistir a dar informações, mesmo nesse estado limite da dor e da humilhação.

Vai abaixo então o relato da professora, que se soma a outros milhares de relatos similares, retratando as práticas dos que, em nome da “pátria”, agiam na defesa dos interesses do grande capital, pela pilhagem nacional e pela exploração de nossas riquezas e nossos trabalhadores.

Cesar Mangolin

Um dia, eles me levaram para um lugar que hoje eu localizo como sendo a sede do Exército, no Ibirapuera. Lá estava a minha fi lha de um ano e dez meses, só de fralda, no frio. Eles a colocaram na minha frente, gritando, chorando, e ameaçavam dar choque nela. O torturador era o Mangabeira [codinome do escrivão de polícia de nome Gaeta] e, junto dele, tinha uma criança de três anos que ele dizia ser sua fi lha. Só depois, quando fui levada para o presídio Tiradentes, eu vim a saber que eles entregaram minha fi lha para a minha cunhada, que a levou para a minha mãe, em Belo Horizonte. Até depois de sair da cadeia, quase três anos depois, eu convivi com o medo de que a minha fi lha fosse pega. Até que eu cumprisse a minha pena, eu não tinha segurança de que a Maria estava salva. Hoje, na minha compreensão feminista, eu entendo que eles torturavam as crianças na frente das mulheres achando que nos desmontaríamos por causa da maternidade. Fui presa e levada para a Oban. Sofri torturas no pau de arara, na cadeira do dragão, levei muito soco inglês, fui pisoteada por botas, tive três dentes quebrados. Éramos torturadas completamente nuas. Com o choque, você evacua, urina, menstrua. Todos os seus excrementos saem. A tortura era feita sob xingamentos como ‘vaca’, ‘puta’, ‘galinha’, ‘mãe puta’, ‘você dá para todo mundo’… Algumas mulheres sofreram violência sexual, foram estupradas. Mas apertar o peito, passar a mão também é tortura sexual. E isso eles fizeram comigo. Eles também colocaram na minha vagina um cabo de vassoura com um fio aberto enrolado. E deram choque. O objetivo deles era destruir a sexualidade, o desejo, a autoestima, o corpo.

ELEONORA MENICUCCI DE OLIVEIRA, ex-militante do Partido Operário Comunista (POC), era estudante de Sociologia e professora do ensino fundamental quando foi presa, em 11 de julho de 1971, em São Paulo (SP). Hoje, vive na mesma cidade, onde é pró-reitora de extensão e cultura e professora titular de saúde coletiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Publicado em: às 18/04/2012 em 12:35  Comentários (3)  

90 anos do Partido Comunista Brasileiro – PCB

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Dia 25 de março o PCB completa 90 anos de luta no brasil!

Assistam ao programa na TV, dia 22/03, quinta, 20:30h. São poucos minutos que nos cabem, mas vale conferir, além de participar de uma série de eventos que estão sendo organizados em sindicatos e universidades pelo Brasil afora ao longo do ano.

No Rio de Janeiro, nesta semana, o PCB tem atividades diárias até domingo abertas ao público interessado.

Ser ou não comunista é uma opção política. Ser comunista é uma opção revolucionária. O fato é que não se pode falar do Brasil sem tratar também dos comunistas brasileiros.

À memória dos inúmeros camaradas que passaram por nossas fileiras! Viva o PCB! Viva o comunismo!

Publicado em: às 22/03/2012 em 16:51  Comentários (2)  

“Revanchismo” ou temor de encarar as responsabilidades?

Cesar Mangolin

Tem chamado a atenção nos últimos meses a movimentação dos militares e demais moralistas de direita e anticomunistas de plantão sobre a instituída, e provavelmente pouco eficaz, Comissão da Verdade.

Destinada a escavar, ainda que superficialmente, e expor os labirintos do que ainda resta de documentação do período ditatorial, além de colocar às claras, principalmente, a política repressiva daquelas duas décadas, tal comissão não tratará de possíveis ações judiciais contra os mandatários das aberrações cometidas: assassinatos, tortura, ocultação de cadáver, violência de todo tipo, inclusive sexual.

Por que têm tanto medo os que persistem vivos e participaram daquilo tudo, além de seus epígonos mais jovens, também formados dentro de fascistóides teorias nacionalistas?

O revanchismo é a acusação regular. No caso, me parece descabida, visto que somente temos uma revanche após uma derrota e o que está em questão não é a vitória ou a derrota, mas os métodos utilizados, condenáveis, inclusive, pela legislação internacional no que concerne às situações de beligerância. Tortura e assassinato de prisioneiros de guerra, ou no caso, de quem está sob a guarda do Estado, não me parece ser alvo de revanche, mas de necessária averiguação e punição de criminosos de guerra.

Deixo, no entanto, este discurso jurídico para os que gastam a vida com ele. Importa pensar no que está por trás dessas movimentações.

Não podemos esquecer o caráter de classe do golpe de 1964. A ditadura, em nome  da ordem (da ordem burguesa, obviamente), pôs abaixo a própria ordem burguesa instituída pela Constituição de 1946. Não foi em nome daquela ordem que o golpe foi dado, mas em nome de uma  nova ordem, surgida com a entrada maciça do capital monopolista ao longo da década de 1950. Foi no interesse do grande capital que a própria ordem burguesa, que permitia ainda a eleição de presidentes com projetos centrados na tradição trabalhista e no desenvolvimento nacional com relativa autonomia, foi colocada abaixo para, sobre ela, se erguer uma nova ordem, que permitiria a livre exploração das riquezas e dos trabalhadores brasileiros.

Os militares podem até, em sua maior parte, ainda acreditar que salvaram o Brasil de alguma coisa ruim, que eles mesmos até hoje não entendem bem. É próprio dos que se disciplinam a receber ordens sem pensá-las. O que importa, porém,  não é no que acreditam os que se movimentam, mas efetivamente pelo que lutam. Lutaram, de forma covarde, pelos interesses do grande capital. Torturaram, assassinaram, ocultaram cadáveres, produziram histórias para justificar suas atrocidades. Tudo isso para que a exploração se acentuasse sem questionamento.

Os que executaram podem até, em parte, pensar que estavam cumprindo um grande trabalho em defesa da pátria. Os piores papéis sempre necessitam dos tolos. Mas, para além dos testas-de-ferro, sabemos que não apenas os altos oficiais, mas também muita gente de fora dos quartéis sabia muito bem o que ocorria ali e exatamente pelo que lutavam. Lembrem dos assíduos contribuintes do IPES e do IBAD; lembrem de Boilesen, o grande empresário que não se contentava apenas em patrocinar o aparelho repressivo, mas também de assistir às torturas. Os amigos de Boilesen não são poucos. Eles devem temer muito o resultado de uma comissão que apure e dê ao povo brasileiro uma versão real dessa história.

Li recentemente uma entrevista de um desses carniceiros ainda vivos. Um delegado da Polícia Civil, chamado José Paulo Bonchristiano, também conhecido com a singela alcunha (que demonstra bem sua tarefa e seu estilo) de “Paulão Cacete e Bala”. Assim era carinhosamente chamado pelos próprios companheiros de ofício. (a entrevista está disponível em: http://br.noticias.yahoo.com/especial-conversas-com-mr-dops.html?page=all ).

Ali temos relatos interessantes de um delegado do Dops, que trabalhava com Fleury (outro carniceiro, “que deveria ter um busto em praça pública”, como diz nosso “Paulão”).

Sobre a ligação com grandes empresários brasileiros, totalmente vendidos e atrelados ao grande capital internacional, temos o seguinte:

Bonchristiano é um dos poucos delegados ainda vivos que participaram desse período, mas ele evita falar sobre os crimes. Prefere soltar o vozeirão para contar casos do tempo em que os generais e empresários o tratavam pelo nome. Roberto Marinho, da Globo, diz, “passava no DOPS para conversar com a gente quando estava em São Paulo”, e ele podia telefonar a Octávio Frias, da Folha de S. Paulo “para pedir o que o DOPS precisasse”. Quando participou da montagem da Polícia Federal em São Paulo, conta, o fundador do Bradesco mobiliou a sede, em Higienópolis: “Nós do DOPS falamos com o Amador Aguiar ele mandou por tudo dentro da rua Piauí, até máquina de escrever”.

Os generais, a Globo, a Folha e o Bradesco, num único parágrafo, numa única lembrança!

Sobre o treinamento recebido da CIA: “Gaba-se de ter sido enviado para “cursos de treinamento em Langley” nos Estados Unidos, pelo cônsul geral em São Paulo, Niles Bond, que admirava a “eficiência” da polícia política paulista. E o chamava de “Mr. Dops””.

Além de treinar 100 mil policiais no Brasil, a OPS-CIA selecionava policiais e oficiais militares para estudar em suas escolas no Panamá (1962-1964); e nos Estados Unidos, depois que a Academia Internacional de Polícia (IPA) foi inaugurada em 1963 em Washington, funcionando até 1975. No Brasil, o OPS ficou até 1972, quando o Congresso americano começou a investigar as denúncias de que o programa patrocinava aulas de tortura.

A IPA foi um das “escolas” nos Estados Unidos que recebeu Bonchristiano antes mesmo do golpe militar. Dois anos antes – logo depois de ser aprovado no concurso para delegado de 5ª classe, o início da carreira, ele já frequentava a casa do diretor DOPS Ribeiro de Andrade, no Jardim Lusitânia, em São Paulo. “Ele estava sempre de portas abertas para nós, ficávamos lá conspirando”, ironiza.

A eficiência a que se refere o texto todos sabem bem qual era…

E dentre seus incríveis trabalhos à mãe pátria está o que segue:

“Bonchristiano tornou-se delegado de 2ª classe em 1969 e foi promovido “por merecimento” a delegado de 1ª classe em 1971. Naquele mesmo dia, admitiu que frequentava os outros centros de tortura montados em São Paulo a partir de 1969, como a OBAN (Operação Bandeirante)  e o DOI-CODI, comandados pelo Exército e compostos de policiais civis e militares instruídos a torturar. Só no período de 1970 a 1974, a Arquidiocese de São Paulo reuniu 502 denúncias de tortura no DOI-CODI paulista, apelidado jocosamente pelos policiais de “Casa da Vovó”.

Bonchristiano disse então que “alguns da diretoria do DOPS” participaram da montagem da OBAN – “os militares não entendiam nada de polícia, depois aprenderam” – e que cederam três delegados no início das operações, todos incluídos entre os torturadores na Lista de Prestes: Otávio Medeiros, ligado ao CCC (Comando de Caça aos Comunistas) e à TFP (Tradição, Família e Propriedade), assassinado em 1973 por militantes da resistência armada; Renato d’Andrea, colega de Bonchristiano na Faculdade de Direito da PUC; e Raul Nogueira de Lima, o Raul Careca, ex-investigador subordinado a Bonchristiano e ligado ao CCC, que se tornaria delegado depois.

Levaram também os métodos da polícia, incluindo o pau-de-arara – na origem um cabo de vassoura apoiado em duas mesas, onde os policiais deixavam o preso pendurado por pulsos e tornozelos até que a dor insuportável os fizesse “confessar””.

Tortura e assassinato, a ligação estreita dos militares com a política civil, mais o CCC, mais os dementes da TFP, grandes empresas nacionais e estrangeiras… Dá pra ver que a coisa era maior que uma pendenga apenas com os militares.

Já chega… Como podem ver não é preciso ir tão longe para saber nomes, responsáveis pelas ações. O que seria preciso, na verdade, e talvez esse seja o medo maior, é apurar quais eram os verdadeiros mandatários, os verdadeiros responsáveis, não apenas os agentes diretos. Neste caso também não é necessário avançar muito e a própria entrevista do orgulhoso Sr. Cacete e Bala já resolveria a questão.

No manifesto publicado e assinado por diversos altos oficiais, intitulado “ELES QUE VENHAM. POR AQUI NÃO PASSARÃO!”, numa atitude típica dos valentões de coturnos, se pode ler: O Clube Militar, sem sombra de dúvida, incorpora nossos valores, nossos ideais, e tem como um de seus objetivos defender, sempre, os interesses maiores da Pátria.”

Pois é… os interesses maiores da Pátria coincidiam (e ainda coincidem) com os interesses da Globo, da Folha, do Bradesco, da Ultragas, enfim, com os interesses do grande capital, jamais com os interesses dos trabalhadores brasileiros!

Assisti um dia desses uma entrevista com Carlos Chagas, jornalista que foi assessor do ditador Costa e Silva, segundo general presidente e responsável pelo AI-5 que, como todos sabem, instituiu de uma vez por todas e de forma brutal, a ditadura no final de 1968.

Chagas disse ter visto o choro do presidente, quando já afastado e sem poder falar por causa da doença que o levou à morte, quando em perguntas seguidas se descobriu que  a maior tristeza daquele que via a morte bem perto era não ter conseguido acabar com o AI-5 e reabrir o Congresso. Disso, tirou a conclusão da bondade do ditador e de que não havia mocinhos e bandidos naquela história.

De fato, somente os imbecis pensam a história como a luta eterna entre mocinhos e bandidos. Não faremos isso aqui. Mas também é preciso ter a mesma qualidade, quando não má intenção, para se chegar à conclusão da bondade ou do arrependimento e, assim, num ato de perdão cristão, depois de estapeados os dois lados do rosto, tratar tal figura central de toda essa tragédia como o pobre homem que era bom, mas as circunstâncias o forçaram fazer algo ruim, mas necessário (para os objetivos postos).

A história não é feita por intenções, nem a bondade, tampouco a maldade, podem nos servir  para compreendê-la, muito menos o arrependimento. Nos serve apenas a análise fria do que foi consumado e como foi consumado, as disposições e desdobramentos, no palco das lutas de classes, da forma como efetivamente ocorreram e seus resultados. O imbecil que individualiza a história está ao lado daquele que constata que o que não ocorreu não poderia ter ocorrido. Dentro da trama e dos encontros, a tarefa principal é compreender porque ocorreu assim e extrair disso boas lições.

Uma das boas lições a extrair disso tudo nos dão alguns países da América Latina: estão punindo vários dos assassinos e torturadores. Outra lição importante é perceber que eles são responsáveis pelo ato da tortura e do assassinato, mas que seus mandantes, os do  grande capital, ainda estão no poder e precisam, uma hora dessas, serem derrubados.

 

Publicado em: às 06/03/2012 em 19:02  Comentários (3)  

A Globo e a bobalização

Cesar Mangolin

A Globo, a Globo… Depois de ver que agora a globeleza faz chapinha e que o samba se rendeu aos encantos do plim-plim, com versinhos pobres de Arlindo cruz, eu que já não esperava nada de interessante dali acabei por jogar a toalha de vez. Não vou mais gastar tempo falando ou escrevendo sobre a Globo. Prometo que é a última vez.

O povo não parece fazer questão alguma de pensar de forma um pouco mais crítica a sua própria bovinização. Não há nada de mais escancarado e mais discutido e mais divulgado que o papel nefasto desta emissora ao longo das últimas décadas. Não temos inocentes aqui: é necessário ser muito desligado e completamente ignorante para nunca ter lido, ouvido e visto alguma crítica razoável às distorções efetuadas por aquela gente que decretou que vivemos numa aldeia global.

Claro que as demais emissoras e outros meios de comunicação tomam a mestra como padrão. As críticas não servem apenas à rede Globo, mas a todos os meios de comunicação de massa, concentrados nas mãos de alguns poucos bilionários. Grupos poderosos que interferem decisivamente na vida política do país e nas possibilidades de acirramento da luta de classes.

Apesar da origem pública do sinal concedido, governo algum ousaria, dentro desta ordem, a afrontar o poder dos que, de fato, compartilham o poder econômico e político.

A música de Arlindo Cruz diz no refrão que o “povo escolheu a Globo, isso é globalização”. Não vamos exigir rigor teórico de uma letra medíocre (aliás, de nenhuma letra ou poesia, ou discurso). Porém, vale já salientar que a tal globalização é um conceito ideológico, que tem servido para diversas malandragens e como justificativa para qualquer safadeza mundial. Ao inferno a música e a globalização, então.

Chama a atenção uma inversão bastante curiosa. O povo não escolheu a Globo: ela foi enfiada goela abaixo dos brasileiros e eles aprenderam a gostar do que vêm ali.

Essa é uma inversão bastante comum no mundo que vivemos: há uma crença de que a produção das mercadorias também obedece à demanda por elas. Sabemos que a produção capitalista gera não somente a demanda, mas também um tipo de consumidor próprio.

A mesma coisa pode ocorrer com relação aos expectadores da televisão brasileira. Eles não escolhem nada: os produtos lhes são impostos e geram não somente a necessidade do seu consumo (novas necessidades, por vezes…), mas também moldam um tipo específico de consumidor. Esse consumidor específico é o santamente bovinizado, egocêntrico e ignorante que vê nas telas um ideal de vida tão estupidificado quanto a sua própria vida real, embora com cores diferenciadas.

Há espaço para ver desgraças ocorridas com os outros, momento de agradecer a deus por não ser com ele próprio; há espaço para as pregações e louvações diversas, afinal, uma fezinha não faz mal a ninguém; há o momento de assistir dramas imaginários e uma vida imaginária; há momentos para rir; há espaço até para ver gente de plástico vivendo trancada e fazendo micagens, alimentando sonhos, declarando o egocentrismo e o hedonismo como valores universais e, às vezes, até fazendo sexo.

É curioso, retomando o que disse mais acima, que muita gente tem consciência disso, mas a coisa funciona como um vício: você sabe que faz mal, mas não consegue largar. Isso me faz lembrar da questão da ideologia, que estudo de um jeito um pouco diferente dos que fizeram do marxismo uma antropologia essencialista ou uma sociologia do trabalho.

Ainda que o recurso à ciência possa fazer perceber, para além das aparências, a estrutura  das relações sociais reais sob as quais vivemos, tal conhecimento não faz, pura e simplesmente, com que se mude de postura ou se lute contra a ordem capitalista. É como se a ideologia fosse algo mais arraigado, mais profundo, como se correspondesse ao real por mais que a teoria possa afirmar seu caráter de limitação aparente, e ainda que a teoria parta e tenha como objetivo último desvendar esta mesma realidade.

É como se estivessem todos embebidos de um líquido alucinógeno: ainda que sabendo que as coisas que vê e vive são efeitos da droga ingerida, acreditam nelas. Ou, podemos até aceitar que a resignação diante da vida como é faz com que tal opção coloque  a todos numa zona de conforto e faça do umbigo de cada um o seu universo.

Ser imbecil por opção não deixa de ser uma opção.

Mas, caso o nosso sambista queira mudar um dia o seu refrão, penso que ficaria mais feio, porém mais correto assim:

“Não é mole não, não é mole não, a Globo idiotizou o povo, isso é bobalização”.

 

 obs.: estou um pouco lento nas postagens aqui. Começo de semestre e mudança de casa são as razões para certa distância. Mas logo volto à atividade normal. Beijo para todos..

Publicado em: às 14/02/2012 em 17:56  Comentários (9)  

Repúdio à invasão de Pinheirinho pela polícia de Alckmin

Cesar Mangolin

Reproduzo abaixo uma nota política do PCB sobre a violência ocorrida em São José.

Pensei em escrever algo, mas as imagens disponíveis falam por si. Espero que o sofrimento daquelas famílias de trabalhadores sirva para que os mais ingênuos tomem como mais um exemplo o verdadeiro caráter do Estado numa formação capitalista, uma máquina ativa na defesa dos interesses da classe burguesa, um centro e modelo de organização do poder, que precisa ser destruído para que qualquer transformação ocorra, por mais que isso doa aos “posmodernosos” seguidores de Foucault e de Holloway.

O Estado contra o povo somente pode mudar quando o povo se voltar contra esse Estado e destruir, com ele, os capitalistas e o capitalismo.

Nossa luta deve caminhar sempre mais nesse sentido e menos nos devaneios teóricos dos que se escondem atrás dos livros para justificar sua passividade.

 

Nota política do PCB de São Paulo

A Comissão Política Regional do Partido Comunista Brasileiro de São Paulo manifesta seu repúdio à truculenta e selvagem invasão de Pinheirinho, comunidade de sem teto composta por cerca de 1.600 famílias na cidade de São José dos Campos, em São Paulo. Num verdadeiro ato de guerra, cerca de 2 mil policiais, com viaturas, cassetetes, bombas de efeito moral, cães farejadores, gás lacrimogêneo e gás de pimenta, orientados por helicópteros que sobrevoavam  ameaçadoramente a região, invadiram a comunidade, ferindo vários moradores, prendendo outros, derrubando residências e batendo em mulheres e crianças; inclusive houve registro de arma de fogo contra os moradores; alguns ficaram feridos.

Os sem teto ocuparam essa área, de propriedade de uma empresa falida do mega especulador Naji Nahas, há cerca de oito anos e lá construíram suas casas e viviam com suas famílias. Os moradores já estavam providenciando a regularização da área quando os proprietários pediram a reintegração de posse. A justiça estadual, mais uma vez demonstrando seu caráter de classe, autorizou a desocupação. Há alguns dias atrás, em função da mobilização popular e da participação de parlamentes de esquerda, chegou-se a um acordo no qual os moradores teriam quinze dias para negociar a regularização do terreno, mas inesperadamente hoje pela manhã (dia 22/1) foram surpreendidos pela invasão policial.

Trata-se evidentemente de mais um episódio de criminalização dos movimentos sociais pelo governo Alckmin, que vem realizando uma verdadeira escalada conservadora. Primeiro, foi a invasão da USP pela polícia militar; depois veio a repressão na Cracolândia, num típico ato de higienização do centro de São Paulo, e agora a invasão da comunidade de Pinheirinho. Esses atos demonstram claramente o caráter truculento, antipopular e antidemocrático desse governo do PSDB, que governa o Estado há mais de 20 anos. Ressalte-se ainda que o prefeito de São José Campos, onde se encontra o acampamento, também é do PSDB.

Partido Comunista Brasileiro, coerente com sua posição de classe, tão logo tomou conhecimento da invasão de Pinheirinho, enviou vários militantes para a região, de forma a dar solidariedade ativo à luta popular, inclusive militantes e dirigentes do Partido estão nesse momento junto ao movimento popular colaborando com o processo de resistência.

Todo apoio à  luta dos moradores de Pinheirinho

Todo apoio à  resistência popular.

Publicado em: às 24/01/2012 em 11:41  Comentários (5)  

LUIZ CARLOS PRESTES: A BANALIZAÇÃO DA IMAGEM DE UM REVOLUCIONÁRIO PELOS GRANDES MEIOS DE COMUNICAÇÃO

(Artigo publicado em “Brasil de Fato” de 12 a 18/01/2012, edição 463)

Por Anita Leocadia Prestes*

 

Já se passaram mais de 20 anos do desaparecimento de Luiz Carlos Prestes. Tendo sido sempre coerente consigo mesmo e com os ideais revolucionários a que dedicou sua vida, sem jamais se dobrar diante de interesses menores ou de caráter pessoal, Prestes despertou o ódio dos donos do poder, que se esforçaram por criar uma História Oficial deturpadora tanto de sua trajetória política quanto da história brasileira contemporânea.

Mesmo após seu falecimento, Prestes continua a incomodar os donos do poder, o que se verifica pelo fato de sua vida e suas atitudes não deixarem de serem atacadas e/ou deturpadas, com insistência aparentemente surpreendente, uma vez que se trata de uma liderança do passado, que não mais está disputando qualquer espaço político. Num país em que praticamente inexiste uma memória histórica, em que os donos do poder sempre tiveram força suficiente para impedir que essa memória histórica fosse cultivada, presenciamos um esforço sutil, mas constante, desenvolvido através de modernos e possantes meios de comunicação, de dificultar às novas gerações o conhecimento da vida e da luta de homens como Luiz Carlos Prestes, cujo passado pode servir de exemplo para os jovens de hoje.

Atualmente tornou-se difícil e pouco convincente recorrer aos antigos expedientes para satanizar os comunistas: acusá-los de “comer criancinhas assadas na brasa”, de defender a “coletivização das mulheres”, de renegar a família, de desrespeitar as freiras, etc. etc. Hoje os expedientes são outros, mais de acordo com os novos tempos. No caso de Prestes – o mais conhecido e o mais respeitado comunista brasileiro -, por tantos anos caluniado ou silenciado, uma nova tática de desmoralização foi adotada pelos grandes meios de comunicação, comprometidos com os interesses das classes dominantes. Na impossibilidade de questionar sua reconhecida honestidade, assim como sua fidelidade aos princípios revolucionários por que sempre pautou sua existência, o novo expediente consiste na banalização de sua imagem.

Procura-se desviar a atenção do público do legado político e revolucionário de Luiz Carlos Prestes, chamando a atenção para aspectos de sua vida privada, tentando apresentá-lo apenas como um homem comum e inofensivo, portanto, para os poderosos deste país. Da mesma maneira do que se passou há alguns anos atrás, com a ampla divulgação do filme “O Velho” – que apresentava Prestes como um comunista fracassado e dedicado a cultivar rosas -, agora a Revista de História da Biblioteca Nacional presta sua contribuição ao esforço de banalização da imagem de Prestes pelos grandes meios de comunicação. Reproduz na capa de sua edição de janeiro de 2012, mês do aniversário natalício de Prestes, foto sua tirada em uma praia, com trajes de banho. Para isso, contou com a lamentável colaboração da viúva do personagem retratado, num flagrante desrespeito à sua vontade e à sua memória. Todos que c onviveram com Prestes sabem que ele não admitia confundir sua vida privada com suas atividades públicas e jamais concordaria com a publicação de semelhante foto na imprensa. Prestes era um homem sóbrio, que detestava qualquer gesto de exibicionismo, qualquer atitude na vida privada que pudesse vir a prejudicar sua atuação como dirigente comunista e revolucionário.

Frente à nova tática dos grandes meios de comunicação, voltados hoje para o expediente da banalização da imagem de revolucionários como Prestes e Guevara – cuja imagem vem sendo mercantilizada pelos donos do capital -, é necessário que todos aqueles, homens e mulheres, comprometidos com a luta pelo socialismo em nossa terra, reforcem a vigilância de classe e procurem contribuir para que o legado revolucionário desses grandes lutadores se torne acessível aos jovens de hoje, aos futuros combatentes de amanhã.

*Anita Leocadia Prestes é professora do Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ e presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes.

 

 

Carta pessoal de Ivan Pinheiro à Anita Leocádia Prestes:

A publicação de uma foto do camarada Luiz Carlos Prestes em trajes de praia no jornal mais reacionário do nosso país (que deveríamos voltar a chamar de The Globe, como outrora) me deixou perplexo.

De início, feliz, por ver o incansável Velho num raro momento de justo descanso.

Não dá para perceber o ano em que a foto foi tomada, mas sabemos que ele nunca teve uma vida tranquila.

Mas comecei a me indignar quando percebi que a foto foi imposta a Prestes. Cochilando, com um chapéu que lhe cobre os olhos, é óbvio que ele não se deixou fotografar naquele momento íntimo; a foto foi tirada à sua revelia.

Acho natural e saudável que entre amigos e familiares de confiança registremos nossos momentos de descontração, de relaxamento.

Mas não é ético que uma foto reservada, como que roubada a uma pessoa (que talvez nunca a tenha visto!) seja tornada pública por quem a possuia. E se trata de uma foto de alguém falecido, que não pode concordar nem discordar de sua publicação.

Prestes não era um desses medíocres ”famosos” globais cujas fotos íntimas aparecem nas ridículas revistas com que se manipulam as pessoas simples para sonharem com a possibilidade de também virem a ser ricas, bonitas e famosas.

Prestes foi um revolucionário, um dos mais importantes da história.

O diário oficial do imperialismo no Brasil certamente não escolheu esta foto para homenagear o Cavaleiro da Esperança, que sem sombra de dúvidas foi o brasileiro mais perseguido e satanizado por este monopólio.

Desta forma, Anita, solidarizo-me pessoalmente com você, compartilhando a justa indignação diante desta (vã) tentativa de banalizar a imagem de Prestes.

Um abraço.

Ivan Pinheiro

Publicado em: às 16/01/2012 em 12:21  Deixe um comentário  

Ano novo… de novo!

Cesar Mangolin

 

Mais uma vez um ano se acaba e outro está para começar…
O movimento constante é a principal lei universal. O tempo, longe de ser uma categoria inata do conhecimento humano, é uma realidade objetiva. O que o humano interfere aí é apenas na forma de contar e perceber o tempo. Os demais animais, desprovidos dessa capacidade racional, vivem o tempo de outra forma. Na verdade, vivem em harmonia com o tempo: há tempo de nascer e de morrer, tempo de acasalar, tempo de deixar isso pra lá, numa boa. Talvez até nisso sejam mais felizes que os animais humanos.
Estes últimos trezentos e tantos dias foram de expressão da vida em todos os seus vieses. Alegrias, conquistas, tristezas, decepções, frustrações, tudo que um sujeito normal tem direito.
Por vezes dá impressão que a virada do ano zera tudo e começamos novamente. Daí essa idéia de se fazer um balanço do que passou. Na verdade, tudo continua exatamente de onde parou, ou melhor, não pára um instante sequer e as mudanças bruscas dependem muito pouco de nossa vontade e muito mais das contingências da vida.
A capacidade de perceber e racionalizar o tempo, como disse acima, dá aos humanos uma falsa sensação de que podemos controlar as coisas todas, sumeter o tempo, assim como submetemos supostamente a natureza. Mentira. Ilusão.
Lutamos para domar o tempo e, principalmente, driblar o resultado natural da vida,parte integrante da vida, que é a morte. Mais do que bem viver, buscamos de forma tresloucada estender a vida no tempo, ainda que seja insana a vida.
Claro que os que assim fazem pensam ser isso bem normal. Por vezes penso se o insano não sou eu e os demais que acusam a maioria de alguma vida sem razão. Isso passa logo: o que é justo, belo e melhor nunca foi definido por maiorias constituídas, assim como a justeza de uma causa não garante sua vitória final.
Daí persistirmos na luta por uma nova forma de organizar as comunidades humanas. Saber que esse mundo e essas relações são estúpidos e que há possibilidade de fazer diferente não torna esse objetivo final um desenlace natural da história. Portanto, tenho aqui já um elemento que deve permanecer no novo ano,com maior intensidade, tentando não cometer os mesmos erros, procurando não deixar que a preguiça e a vaidade intelectual atrapalhem essa construção que é necessariamente coletiva. Persisto militante e comunista no próximo ano.
Ainda como parte disso, persistirei na tentativa de contribuir também na reflexão teórica, continuando a estudar, escrever e compartilhar nas variadas formas possíveis com os que quiserem também participar dessa construção que é também coletiva. Pobres dos que sonham em produzir teorias isoladas e assinadas. Escrevem para encher seus egos. Não precisamos de gente assim.
Já que insisto tanto na coletividade, também pretendo continuar privilegiando um núcleo mais próximo na convivência diária, particularmente meu amor, a Ruth, companheira para qualquer parada, fundamental para a vida. Também vamos continuar a busca por uma vida mais razoável, ainda que dentro dessa loucura.
Continuo também com os defeitos todos, principalmente aqueles dos quais me orgulho: intransigência diante de situações que me parecem injustas; teimosia quando tenho certeza de algo; colocar princípios antes dos interesses pessoais em momentos cruciais. Isso nem sempre é inteligente e necessário.
Aprendi e vou carregar comigo, principalmente, experiências que envolvem nosso tempo, esse lapso de tempo que chamamos vida.
Vou carregar a experiência da fragilidade da vida e aprender sonhar mais e melhor, mas concretizar o que é possível sem protelação; carregar a necessidade de observar e viver mais as coisas mais simples que nos cercam; carregar o peso de ver a morte de perto, sentir a dor dos que ficam e, principalmente, a dor de persistir, de observar que tudo continua, ainda que pareça estranho que tudo continue quando falta alguém importante por perto. Vi gente tendo que fazer isso este ano, todos os dias milhares de pessoas têm que aprender a fazer isso, e parece algo que abre um buraco imenso na alma de qualquer um.
Não há um tempo específico para chorar nossos mortos. Isso deve ser feito enquanto continuam as demais tarefas, enquanto outros não entendem, enquanto a vida continua. Chorar a morte é chorar a vida, que merece todas e as faltantes lágrimas.
2012 será melhor e pior, tudo acontecendo ao mesmo tempo. Eu que escrevo aqui e você que lê podemos não chegar à virada de 2013. Poucos sentirão nossa falta.
Aprendi algo de interessante de alguém especial esses dias. Um negócio simples, que vale para a vida. Se alguém lhe perguntasse: “O que você deve fazer quando se reunem as moscas?” A resposta mas rápida que vem à mente é a de espantar as moscas, ou matá-las. Porém, o problema somente é resolvido quando o que atrai as moscas é retirado, trocado ou jogado fora e o local limpo.
Que saibamos fazer isso na vida e com a vida: retirar, trocar ou mandar longe o que atrai as moscas e não viver abanando as merdas do cotidiano como se fosse o melhor.
2011 foi alegre e sofrido, triste e bom. 2012 será do mesmo jeito. Desejo apenas que saibamos viver melhor essas coisas todas.

Obs.: quanto à virada, continua o conselho do ano passado: mande pra dentro umas boas doses de vodka lá pelas 22:00h e depois capriche na cerveja. Se você não vomitar até as 24:00h, das duas uma: ou terão medo de lhe abraçar e ficar com aquela chatice de “feliz ano novo” e coisas assim, ou você embarca na coisa e até chora cantando “que tudo se realize no ano que vai nascer”.
Beijo para vocês!

 

 

 

Publicado em: às 30/12/2011 em 11:13  Comentários (3)  
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