É correto a princesa ser beijada enquanto dorme?

Cesar Mangolin

Seis momentos recentes.

Primeiro, dia desses, uma notícia feliz: 16 crianças de uma sala de quarta série votaram e responderam “não” à pergunta que dá título ao texto: 14 votos não e apenas 2 sim. Estava em questão a historinha da “bela adormecida” que é acordada por um beijo do “príncipe encantado”. A conclusão das crianças é bem interessante: se ela estava adormecida, o beijo não foi consentido. Seria razoável beijar o outro, ou tocar o outro, sem seu consentimento? Para essas crianças que têm em torno de dez anos de idade, não. Mas não é ainda de espantar que festejemos uma constatação tão óbvia?

Segundo momento: estudantes do curso de Direito debatem a pena de morte. Um grupo a defende e usa a violência contra a mulher como exemplo. Segundo o grupo, os estupros, espancamentos, assassinatos seriam praticados por psicopatas que, por serem doentes mentais irrecuperáveis e cometerem esse tipo de crime, deveriam morrer. Mal desconfiavam os nossos futuros advogados, promotores e juízes que são irrisórios os números de crimes cometidos pelos que são afetados por doenças mentais. Esse raciocínio, de fazer sorrir qualquer nazista de plantão, esconde na verdade que nossa doença se chama machismo e que são homens muito normais e sem doença alguma os que cometem 99% dos crimes de violência contra as mulheres.

Terceiro momento: um decadente “artista”, que tem no currículo “projetos” bem sucedidos de programas e shows nos quais as mulheres são apresentadas como animais em um zoológico, que atuou em filmes pornográficos (e não parece ser necessário insistir no quão machista é a indústria da pornografia!), que – o mais grave – é um estuprador confesso e narrou essa violência num programa de TV sob aplausos da plateia, é recebido no Ministério da Educação pra defender o projeto Escola sem Partido, que é, dentre outras barbaridades, contra a educação e orientação sexual nas escolas.

Quarto momento: a primeira presidente do Brasil enfrenta um golpe e sofre das mais ignominiosas ofensas e mentiras… Ela, que lutou contra a ditadura militar e foi presa e torturada pelo Estado brasileiro, apresenta uma força descomunal diante desse processo. Mas as críticas não são apenas políticas: ela é chamada de vagabunda, de puta, fazem insinuações em jornais e revistas sobre suas preferências sexuais ao mesmo tempo em que se faz a defesa da mulher objeto de decoração, que deve ser “bela, recatada e do lar.”

Quinto momento: um deputado federal, ao votar em favor do processo de derrubada da presidente eleita,  recupera a memória de um chefe de torturadores com se fosse um herói. Nas sessões de tortura, aliás, não era raro ocorrer o estupro coletivo das mulheres sequestradas. Invoca também a memória de Caxias e seu exército, aquele mesmo exército que estuprou e executou, como “política de guerra”, as mulheres paraguaias naquela vergonhosa covardia da qual os brasileiros participaram. O mesmo deputado que defende que os militantes de movimentos populares devem ser assassinados, que gays devem morrer, que educou bem seus filhos e, portanto, “eles não correm risco de se casarem com mulheres negras”… O mesmo deputado que defende que mulheres devem mesmo ganhar menos que os homens porque elas engravidam. O mesmo que disse a uma deputada, em rede nacional, que não a estuprava porque ela era “feia e não valia a pena”…  O mesmo deputado que tem sido celebrado como um exemplo a ser seguido por um número considerável de homens e mulheres…

Sexto momento: mais de trinta homens estupram uma mulher no Rio de Janeiro… Eles filmam e divulgam o ato. Eles festejam como um troféu conquistado a estupidez praticada ali. Ninguém reagiu. Todos devem ser, independentemente da idade, trabalhadores, estudantes, filhos, pais, irmãos… Gente normal, “gente de bem”, que culturalmente não vê a barbárie cometida como uma violência injustificável… E isso choca mais: tenham certeza de que eles sabem que é violência, que eles sabem que não está correto o que fizeram e sabem muito bem o que fizeram. Eles apenas atribuirão, sem dúvida alguma, à mulher violentada a culpa pela violência que sofreu, assim como já há uma porção de gente em redes sociais falando que a moça tinha problemas com a família, ou com drogas e coisas assim. Liberar o macho da responsabilidade por seus “instintos” e culpabilizar a mulher por sua “sedução” é argumento antigo e ainda amplamente utilizado nas violências domésticas, consanguíneas, de padrastos sobre enteadas, das mulheres estupradas nas ruas porque era “tarde e a rua estava deserta e ela  não deveria estar ali”, ou porque ela estava vestida “como uma puta”, ou porque “facilitou”, “deu mole” etc..

Podemos multiplicar  aos milhares em apenas um ano esses exemplos somente aqui no Brasil. Mas é preciso dar atenção ao fato de que crimes como o do Rio de Janeiro ocorrido nesta semana são muito mais comuns do que pensamos, porque  o problema não é, evidentemente, a quantidade dos que participam do crime, mas o crime em si. Nossa cultura machista torna uma violência dessa magnitude contra as mulheres algo comum, sem importância, como se fosse um mal com o qual se deve conviver resignadamente.

Jogamos pra debaixo do tapete um problema social de grande gravidade: o que conceituamos como “homem” em nossa cultura corresponde diretamente ao machismo  e, portanto, somos todos formados como potenciais estupradores. Isso entristece e assusta. Ser “homem” na nossa cultura é, sem dúvida, um motivo de vergonha.

 

 

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