A nova onda da classe média cor-de-rosa

Cesar Mangolin

Meses atrás a histeria coletiva da classe média pedia a redução da maioridade penal. Recentemente foram presos os que, na época, viraram heróis dessa gente, quando prenderam um jovem negro num poste e ali o espancaram: eram traficantes da região do Flamengo, no Rio, filhos de classe média, que apenas estavam eliminando a concorrência… Foi a mesma oportunidade em que uma jornalista obtusa soltou a célebre frase: “quem está com dó, que leve pra casa.” Vimos muita gente defendendo a justiça com as próprias mãos, até que uma turba ensandecida matou por espancamento uma mulher inocente em Guarujá, dentre outros assassinatos e espancamentos ocorridos por todo o Brasil. Ainda mareja os olhos lembrar o suplício daquela mulher, que confundida com uma sequestradora de crianças de outro Estado por algum desses imbecis, morreu sem ter tempo e chance de se defender…

Nas chamadas e mal compreendidas “Jornadas de junho”, em 2013, a classe média cor-de-rosa também mostrou as garras… Agrediram militantes de organizações que estão por décadas nas ruas e em todas as lutas, reivindicaram para si o direito supremo de decidir que a partir dali era ela quem dava as cartas, ainda que sem saber exatamente porque saía às ruas… Mas ela tem fôlego de ancião, embora seja composta por grande número de jovens: não aguentou mais que duas semanas para reconduzir ao berço esplêndido o gigante recém acordado… São os mesmos que animaram-se com as marinagens e tucanagens das eleições presidenciais, que reelegeram o PSDB em SP, que elegeram deputados e senadores conservadores pelo Brasil afora, dentre eles ex-militares fascistóides e suas crias, pastores infelizes, racistas e homofóbicos, assassinos da Rota paulista…

Estiveram num ato público pouco antes do segundo turno, no Itaim Bibi, conhecido bairro de endinheirados de São Paulo. Gritaram contra o comunismo, diziam aos que votariam em Dilma que fossem embora para Cuba, ouviram discursos inflamados do filho de Bolsonaro, eleito deputado por São Paulo, que compareceu devidamente armado. Ofenderam trabalhadores que circulavam ao final da tarde, indo pra casa depois de servirem às suas portarias e limparem sua sujeira… Cantaram o hino nacional em frente ao shopping JK, puxado por uma cantora que nem mesmo mora no Brasil e que tem questionável intelecto…

Passadas as eleições e confirmada a reeleição de Dilma, retornaram aqui e ali às ruas. Ofenderam novamente os trabalhadores, cometeram injúrias raciais diversas, atos explícitos de racismo nas redes sociais e nas ruas, imploraram a militares por uma intervenção, pediram pelo retorno da ditadura militar, colocaram em questão a contagem de votos… Infelizmente os que prometeram ir embora caso Dilma vencesse desistiram e resolveram aparecer, envolvidos pela bandeira nacional, como micos animadores de uma quase festividade reacionária tão estúpida como a daqueles que estendiam as mãos espalmadas para a passagem do Führer… Eles lamentam não terem um desses: o Brasil, na concepção dessa gente, foi incapaz de produzir alma tão grandiosa. Resta sonhar com a reencarnação dos gorilas de farda de 1964…

Mas eles são apenas tolos mesmo. O discurso sem fundamento esconde, na verdade, o asco que criaram por qualquer coisa que carregue o nome de “trabalhador”. Ainda que os governos do PT estejam dentro da ordem e garantindo nesses anos todos alta lucratividade ao capital, eles não se conformam que ocorra qualquer tipo de política compensatória, distributiva ou de estímulo aos trabalhadores. Atribuem a miséria a questões genéticas e tratam como inferiores os que foram, historicamente, colocados à margem do desenvolvimento capitalista. Herbert Spencer, Gobineau, Gall, Galton fariam muito sucesso entre eles, caso pretendessem estudar alguma coisa para dar explicação às suas tolices. Mas nem de intelectuais racistas eles gostam. A histeria não dá lugar à razão, são incompatíveis.

Alguém disse recentemente que quem não conseguiu até hoje engolir a lei Áurea não pode aceitar que trabalhadores tenham uma vida melhor. Infelizmente há razão nessa constatação. Apenas podemos corrigir um tanto: eles até aceitam a lei que libertou os escravos. O que não podem aceitar é que quem deveria ser escravo pretenda deixar de viver como um, que esteja em espaços comuns, que utilizem os mesmos elevadores, que viajem nos mesmos aviões, que comam da mesma carne.

Na verdade a classe média cor-de-rosa tem pavor da melhoria de vida dos trabalhadores, tem medo do seu acesso (ainda que precário) aos bancos do ensino superior. Ela precisa de pobres e ignorantes para justificar diante da burguesia suas supostas competências, registradas em certificados e diplomas. Ela precisa fazer acreditar que é por esforço e mérito pessoal que merece o reconhecimento e os melhores postos de trabalho para que ela possa se replicar geração após geração. Como dizia Bourdieu sobre a escola, eles precisam do privilégio supremo de não aparecerem como privilegiados. A ideologia do mérito pessoal é sua fé e a existência de miseráveis é o elemento comparativo necessário para que ela possa mostrar-se como grupo diferenciado, assim como uma bolsa maior somente pode ser assim reconhecida se comparada com uma menor… Tenho medo e dó dessa gente ao mesmo tempo.

Mas, infelizmente para eles, não haverá intervenção militar alguma. Em 1964 havia uma fração nova e poderosa do grande capital (o capital monopolista, instalado aqui fisicamente com as multinacionais) à qual interessava a saída ditatorial para realizar seus objetivos mesquinhos: exploração de força de trabalho muito barata, acesso a matérias primas, exportação e reprodução do capital sem limites ou barreiras. A última tentativa de resolver isso pela própria ordem burguesa foi a eleição de Jânio Quadros, apoiado e levado à presidência pela UDN (algo como o PSDB e o DEM de hoje). O fanfarrão presidente tentou um golpe de força e foi substituído pelo herdeiro do trabalhismo getulista, João Goulart, que nada tinha de simpatia pelos comunistas, apenas prometia reformas que beneficiariam os trabalhadores e impediria a livre sangria das nossas riquezas pelo grande capital… Foi o momento em que a própria burguesia rompe com a ordem constitucional, com sua própria ordem portanto, demonstrando uma vez mais que ela não possui nenhum compromisso com as tais liberdades democráticas. Era necessário um Estado repressivo para impedir que os trabalhadores reagissem à ampliação da sua exploração e um Estado que lhes beneficiasse diretamente através de obras estruturais, concessão de monopólios extrativos e matérias primas beneficiadas em siderúrgicas estatais vendidas por vezes abaixo do preço de custo… Era disso que se tratava ali. Não havia ameaça comunista alguma. Os militares brasileiros cumpriram bem o seu papel de rastejantes lacaios dos interesses imperialistas, como sabemos pelas histórias de prisões arbitrárias, censura, proibição de organização, torturas, assassinatos, ocultação de cadáveres etc., etc. Alguém que defende a ditadura ou pede sua volta merece somente o sentimento de dó e o lamento por sabermos que existe gente desse tipo vivendo entre nós. As forças armadas brasileiras e o Exército, em particular, conquistaram com isso apenas uma mancha de vergonha e de sangue de brasileiros contra os quais voltaram suas armas.

Curioso é que a classe média mesmo foi das primeiras a se arrebentar com a política econômica da ditadura, assim como se despedaçou com a entrada das multinacionais pouco tempo antes. O mesmo aconteceu nas experiências fascistas. Mas ela estava lá, servindo de base social para esses movimentos todos. São corresponsáveis pelo extermínio de povos nativos e por milhões de mortos de fome desses anos nefastos.

É evidente que não sabiam (e até hoje não sabem) do que se tratava. A sua mediocridade intelectual e sua centrada perseverança no próprio umbigo não lhe permite compreender, mesmo com a distância histórica, o que foi aquela tragédia para os brasileiros. Envoltos em bandeiras nacionais, eles saíram às ruas lá, como hoje, gritando contra a ameaça comunista, contra a corrupção, pedindo a intervenção dos militares. As beatas marchadeiras da classe média saíram às ruas pela família e pela liberdade, com deus e os eunucos do reino…

Prepararam o terreno e a base social para que golpe e a ditadura viessem e os interesses do grande capital fossem atendidos plenamente…

Hoje não há esse interesse por nenhuma fração do grande capital. Que o capital financeiro prefira, sem dúvida, gente de sua estrita confiança (no caso, um presidente do PSDB), não há dúvida. Mas não há nada no horizonte que ameace seus interesses seriamente. Podem tocar a vida assim.

Portanto, aviso de novo, não haverá golpe agora. Não imagino que qualquer um desses infelizes que andam pelas ruas pedindo a volta da ditadura esteja lendo esse texto até agora, mas quem sabe alguma alma bondosa tente explicar isso a eles de alguma forma.

Caso alguém se disponha a cumprir tarefa tão terrível, peço que diga a eles outra coisa: há, sem dúvida, semelhanças entre as palavras de ordem do pré-1964 e as de agora. Mas não há o elemento fundamental para usar essa gente estúpida toda como base social. Para o capital vai tudo muito bem. Resta apenas lembrar aquela formulação de Hegel, de que a história se repete duas vezes, acrescida do comentário de Marx: a primeira como tragédia, a segunda como farsa ou como comédia. É só disso que se trata agora: esses imbecis nos propiciam uma lamentável comédia.

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6 comentários sobre “A nova onda da classe média cor-de-rosa

  1. Salve.

    Boa análise, ácida e hostil com quem bem merece.

    Só uma pequena discordância com uma pequena questão talvez de estilo redacional. No quarto parágrafo, vc diz “[classe média] Atribuem a miséria a questões genéticas e tratam como inferiores os [trabalhadores pobres] que foram, historicamente, colocados à margem do desenvolvimento capitalista”. Entendo particularmente que o desenvolvimento capitalista inclui, sim, os trabalhadores: eles são incluídos na específica condição de explorados. Afinal, supor “inclusão” assim de uma forma genérica, sem a especificidade, pode dar a entender alguma forma de proposta reformista, o que sei não ser sua posição (e não entro agora no mérito tático das conquistas populares por meio de reformas, etc). Mas acho que isso é mais questão de estilo redacional que teórico. Abraço

    1. Meu camarada, concordo com você. Por isso não utilizei a palavra “exclusão”, mas a ideia de marginalização. Mas a minha formulação ficou imprecisa, de fato. abraço.

  2. Lamentável que, depois de tudo que a nossa nação sofreu com a ditadura, ainda tenha gente que defenda o autoritarismo e a opressão. Felizmente temos uma democracia sólida e espero que as pessoas entendam que o processo democrático deve ser respeitado. O que vale a pena lembrar é que as ditaduras tanto de direita como de esquerda são muito parecidas e, na minha opinião, quanto mais longe de qualquer uma delas estivermos, melhor.

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